No quarto e último dia da convenção democrata, em Filadélfia, nos Estados Unidos, há a reter o discurso de Hillary Clinton, a mulher que já fez história ao ser a primeira nomeada por um grande partido na corrida à Casa Branca.

Hillary ganhou a igualdade de género, uma batalha antiga. Mas outros desafios de inclusão se colocam na sociedade americana. Uma das oradoras também fica para a história como a primeira transexual assumida a integrar o staff da Casa Branca e a primeira discursar numa convenção democrata.

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Sarah McBride foi a palco defender os direitos da comunidade LGBT, ou seja, os direitos dos homossexuais, transsexuais e bissexuais.

“Vi que a mudança é possível. Fui testemunha dessa mudança histórica na Casa Branca e ajudando o meu estado natal, Delaware, a aprovar leis de proteção dos direitos dos transsexuais”, disse.

“Hoje em dia, a comunidade LGBT é alvo de ódio. Mas acredito que o amanhã pode ser diferente. Amanhã, podemos ser respeitados e protegidos, especialmente se Hillary Clinton for a nossa presidente”, defendeu Sarah McBride sob o olhar atento dos pais.

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Ícone da comunidade LGBT e da juventude norte-americana, Katy Perry explicou que tem “uma mente aberta” apesar de ser filha de pastores e republicanos”. A cantora levou uma música nova à convenção, “Rise”[subir] e apelou a todos que fossem votar no dia 8 de novembro em Hillary Clinton.

"O voto de cada um “vale tanto como o voto de qualquer um dos defensores do lobby da NRA [associação dos defensores das armas]”, disse Katy Perry. 

 

 

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A música e o silêncio na mesma noite. A xerife de Dallas, Lupe Valdez, pediu um minuto de silêncio em memória dos polícias mortos.

“Temos de ser o desfibrilhador dos tempos modernos”

“A religião não pode ser usada para camuflar a maldade, temos um problema no coração da América”, afirmou o reverendo  William Barber, num dos discursos que mais apaixonaram o público do Wells Fargo Center, em Filadélfia, explicando que este não é uma questão entre esquerda e direita, ou entre liberais e conservadores, mas entre o certo e o errado.

 

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O reverendo da Carolina do Norte defendeu que “temos de ser o desfibrilhador dos tempos modernos”.

“Quando amamos as crianças judias e as palestinianas, as muçulmanas e as budistas, as cristãs e aquelas que não têm fé, estamos a falar do coração desta democracia”, disse William Barber, recebendo uma grande ovação do público.

Uma Constituição Americana para Trump

Hillary Clinton quer ser a presidente dos Estados Unidos e unidos se querem os americanos de todos os credos. Como os muçulmanos, que repudiam a desconfiança que os republicanos querem fazer passar sobre a sua religião, cultura e comunidade. Para contrariar esta ideia, nada melhor do que falar em veteranos de guerra e muçulmanos. Como Humayun Khan.

Foram os pais de Humayun Khan que falaram. Khizr Khan e a mulher subiram ao palco da convenção democrata norte-americana, esta quinta-feira à noite, afirmando-se “orgulhosos de serem os pais do Capitão Humayun Khan”, morto no Iraque em 2004 e medalhado post mortem pela sua coragem em 2005.

A mãe com o véu muçulmano e a fotografia do filho em pano de fundo. Humayun Khan. Herói de guerra norte-americano e muçulmano. Hillary Clinton chamou-lhe “o nosso capitão”, segundo o pai, que, no discurso fez o comparativo com o candidato republicano à casa Branca.

“Se dependesse de Donald Trump, Humayun nunca teria estado na América”, disse o pai deste herói de guerra. “Donald Trump faz questão, constantemente, de denegrir o caráter dos muçulmanos. Ele não respeita as minorias, mulheres, juízes. Ele deseja criar murros e expulsar-nos deste país”, segundo o Washington Post.

 

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Num discurso emotivo, a dada altura, Khizr Khan tirou a Constituição Americana do bolso, deixando um repto a Donald Trump.

“Alguma vez leu a Constituição dos Estados Unidos? Eu empresto-lhe uma cópia com todo o gosto. Este documento fala em ‘liberdade’ e “igual proteção perante a lei’”.

E ainda convidou Trump a visitar o cemitério de Arlington: “Vá lá ver as campas dos bravos patriotas que morreram em defesa da América – vai encontrar todas as religiões, géneros e etnias”.

"Não à guerra"

Mas, também se gritou “Não à guerra” nesta convenção, cânticos entoados por apoiantes de Bernie Sanders durante o discurso do General John Allen, que até há pouco tempo era o enviado especial da Administração Obama para o assunto Estado Islâmico.

A convenção quis servir para definir o futuro da América, mas este não é separado do futuro do mundo. E a América, ferida há muitos anos pelo maior ataque terrorista, não pode ignorar o Estado Islâmico. Sem nunca referir o nome de Donald Trump, o general afirmou:

“Os riscos são enormes. Nós não devemos, não podemos colocar-nos à margem”, defendendo que Hillary Clinton é a “melhor comandante” e uma “oportunidade para o nosso futuro e para o futuro do mundo”.