Quando, há precisamente quatro anos, os republicanos tomaram o controlo da Câmara dos Representantes, ainda que mantendo desvantagem para os democratas no Senado, Mitch McConnell, líder da então minoria do Partido Republicano na câmara alta, anunciava, de forma agressiva: «O primeiro objetivo dos congressistas republicanos agora eleitos, nos próximos dois anos, é impedir um segundo mandato de Barack Obama na Casa Branca».
 
Esse tal «primeiro objetivo» acabaria por falhar redondamente: dois anos depois, em novembro de 2012, Barack Obama viria mesmo a ser reeleito e com diferença mais folgada do que as sondagens previam.
 
É interessante relembrar estes dois factos da história recente da alta política americana, para pôr um pouco mais em perspetiva o cenário que se criou em Washington depois das eleições do dia 4.
 
A vitória republicana nas intercalares de 2014 foi ainda mais penalizadora para o Presidente Obama, agora no seu sexto ano na Casa Branca, do que o triunfo republicano em 2010, na altura com Obama ainda a cumprir o seu segundo ano como Presidente.
 
Desta vez, o partido que se opõe (e muito...) a Barack Obama tomou também o controlo do Senado, pelo que passou a mandar nas duas câmaras do Congresso.
 
Se o processo legislativo já era basicamente dominado pelos republicanos (questões como o orçamento, a dívida, ou matérias fiscais partem da Câmara dos Representantes e mesmo o que é proposto pelo Senado tem que depois «baixar» à House), agora é mesmo tudo: no Senado, nos primeiros seis anos de Obama controlado pelos democratas, decidem-se matérias de política externa e confirmam-se nomeações presidenciais para o executivo e para o Supremo Tribunal.
 
Trocado por miúdos: o Presidente só tem duas formas de evitar que os seus últimos dois anos de mandato sejam condenados à paralisação completa.
 
A primeira é tentar negociar com a oposição no Congresso. A segunda é insistir na via das «ações executivas presidenciais», que não exigem aprovação do Congresso.
 
Se, em matérias como o orçamento, o teto da dívida ou a «Fiscal Cliff» já teve grandes momentos de tensão negocial com o «speaker» John Boehner (congressista republicano do Ohio), vai ter que reforçar as pontes de diálogo com o novo «ás de trunfo» do Senado: o experiente, hábil e duro senador republicano do Kentucky, Mitch McConnell, no Capitólio há 30 anos e recém-eleito pela sexta vez.
 
Ora, o mesmo McConnell que há dois anos jurava ter como primeira preocupação cortar todas as vazas a Obama pode, agora, ser fator de desbloqueamento do «gridlock» no Congresso.
 
Impossível? Nem por isso.
 
Em política, tudo pode ser moldado ou adaptado, em função das circunstâncias.
 
Barack Obama já se mostrou disposto a avançar para «ações executivas» em questões como a Imigração (estará prestes a anunciar plano de dez medidas sobre o tema, de modo a pôr fim aos bloqueios no Congresso sobre tema tão decisivo para a agenda política do seu segundo mandato).
 
Mas o Presidente também sabe que não é politicamente viável passar dois anos inteiros a governar com ações executivas, assinadas diretamente da sua mesa na Sala Oval, ignorando olimpicamente o Congresso republicano.
 
Um comportamento desses colocaria Obama ainda mais na berlinda e aumentaria os argumentos agressivos dos republicanos (agora com legitimidade reforçada pelo triunfo eleitoral nas intercalares) contra o Presidente.
 
As cartas estão lançadas. A reeleição de Obama mostrou que um triunfo republicano para o Congresso não significa, automaticamente, sucesso nas eleições presidenciais dois anos depois.
 
O desejo republicano de voltar à Casa Branca (já a espreitar 2016 estão nomes como Jeb Bush, Rand Paul, Scott Walker, Ted Cruz, Chris Cristie ou Paul Ryan) poderá exigir um outro tipo de abordagem a partir de agora.
 
Está lançada a discussão sobre a necessidade dos republicanos aderirem a algumas ideias do Presidente no que toca à legalização dos imigrantes (sob pena de, em 2016, o nomeado republicano perder largamente em segmentos como os latinos).
 
Edward Isaac Dovere e Manu Raju observam, em artigo conjunto no Politico Magazine: «Agora, Obama e os seus conselheiros consideram possíveluma nova vida com o congresso totalmente controlado pelos republicanos. E olham para o futuro líder da nova maioria no Senado como a pessoa que pode ajudar a um legado a criar no segundo mandato presidencial. Não é que Obama e os seus adjuntos na Casa Branca tenham esquecido a história com McConnell. Mas o novo líder do Senado parece ter melhores condições do que outros para assumir esse papel».
 
Barack Obama/Mitch McConnell: haverá esperanças para esta relação?
 
Germano Almeida é jornalista do Maisfutebol, autor dos livros «Histórias da Casa Branca» e «Por Dentro da Reeleição» e do blogue «Casa Branca»