Foi difícil, mas valeu todo o esforço. Clare até precisou de fazer dois telefonemas e pôr o auscultador do telefone fora da janela do seu quarto de hotel na cidade de Katovice para convencer um diplomata britânico. Uns mil carros de combate alemães tinham atravessado a fronteira e estavam a invadir a Polónia. Foi o início da II Guerra Mundial, a 1 de setembro de 1939.

Clare Hollingworth, consagrada repórter de guerra, morreu esta terça-feira aos 105 anos, na cidade chinesa de Hong Kong, onde residia. Para a história fica o relato da então jovem jornalista a trabalhar para o britânico The Telegraph que, nos seus 27 anos, estava no sítio certo, à hora, inesperada.

Na sua edição online, o The Telegraph relembra esta terça-feira o momento em que Clare alertou o mundo para aquilo que o mundo mais receava: o início da expansão alemã nazi pela Europa fora.

Quando ouviu as baterias anti-aéreas polacas a tentarem ripostar os bombardeiros alemães, "abriu a janela e telefonou aos correspondente do The Telegraph, em Varsóvia. Aquela hora da noite, Hugh Carleton Greene não lhe deu crédito. Até porque tinha informações da parte da diplomacia polaca de que havia negociações, que continuavam.

Sem convencer o correspondente sénior do jornal, Clare telefonou para o segundo secretário da embaixada britânica na capital polaca, Varsóvia.

- Começou a Guerra!"

- Tem a certeza, minha senhora?

- Oiça! Pôs o auscultador do telefone fora da janela e perguntou depois: Não está a ouvir?"

Dois dias depois, o The Telegraph dava à estampa a notícia. Nesse mesmo dia, Reino Unido e França declararam guerra à Alemanha. O maior conflito do século XX tinha começado.

Rapariga do campo

Vietname, Argélia, Médio Oriente foram cenários de guerra pisados e conhecidos por Clare Hollingworth, uma rapariga nascida a 10 de outubro de 1911, que passou a maior parte da sua infância e adolescência vivendo numa quinta.

Lembro-me dos aviões alemães a sobrevoarem a quinta onde vivia para para bombardear Loughborough", relembrou Clare, segundo relata a BBC, "e de irmos no dia seguinte com o pónei Polly até Loughborough para ver os estragos que tinham feito".

Clare seguiu a sua vida, como as raparigas de então. Mais ou menos. Estudou num colégio e aí ganhou uma aversão ao habitual trabalho doméstico feminino. Em 1936, casou-se e dois anos depois estava na capital polaca, Varsóvia, a ajudar os refugiados dos Sudetas, a região com descendentes alemães que Hitler anexara em 1938.

O resto viria por acréscimo. Em agosto de 1939, Clare regressa a Londres. Convencido pelo conhecimento que tinha da Polónia, um editor do The Telegraph contrata-a, para exercer uma profissão, então, dominada por homens. De volta a território polaco, consegue chegar a Katovice e presenciar o início da invasão, na noite de 1 de setembro.

Repórter de guerra

A guerra levou Clare Hollingworth, à separação do marido, à Turquia, à Grécia e ao Egito. A profissão de jornalista que abraçou leva-la-ia mais tarde a viver outros conflitos. Na Argélia, Vietname e no Médio Oriente, sobretudo após o seu novo casamento com Geoffrey Hoare, o correspondente do The Times na região.

Viúva em 1966, Clare Hollingworth tornou-se correspondente do The Telegraph em Pequim, em 1973. Ficou-se pela China, passando a viver a reforma, em 1981, no território de Hong Kong.

Aí morreu esta terça-feira, aos 105 anos. Na memória fica a sua resposta, quando lhe perguntaram onde gostaria de ir, se lhe telefonassem a propor uma nova reportagem:

Olharia para os jornais e perguntaria: Qual é o sítio mais perigoso para ir? Porque aí, há sempre uma grande história".