Jerusalém está a um passo da Cisjordânia. Mas entre a cidade e a região há mais muros do que pontes. A matrícula diplomática da viatura em que seguimos permite-nos chegar à fronteira rapidamente, embora com um alerta. “Não mostre o telemóvel mais à frente”, somos avisados dentro de um veículo da EUPOL COPPS, a missão europeia de apoio à polícia palestiniana nos territórios ocupados.

À frente temos o posto de controlo de Qalandia. Na estreita passagem, estão militares israelitas armados. De ambos os lados há placas vermelhas, bem visíveis, onde se lê um sério aviso: “Esta estrada conduz à área “A”, sob controlo da Autoridade Palestiniana. A entrada de cidadãos israelitas é proibida, coloca a vossa vida em risco e é contra a lei israelita”.

Cruzado o posto de controlo, estamos na Cisjordânia.

Do outro lado da estrada, os palestinianos que quiserem sair, mesmo autorizados, podem ter de esperar horas. E as filas alongam-se.

Este é um território ocupado. As marcas estão à vista: nos muros; nas torres de vigia; no campo de refugiados, por onde passamos de largo; nos cilindros negros nos telhados, sempre à espera dos escassos dois dias por semana em que a água corre nas torneiras.

A estrada leva-nos até Ramallah e só paramos na sede da EUPOL COPPS. Um edifício vigiado com um homem de espingarda automática à entrada. A missão, que começou em 2006, conta com contribuições de 21 países da União Europeia e ainda da Noruega, Canadá e Turquia. Para este ano o orçamento é de 13 milhões de euros. O objetivo insere-se num desígnio mais amplo da União Europeia: ajudar a Autoridade Palestiniana a ter instituições sólidas que possam servir um futuro estado na região.     

Mas voltemos ao edifício, porque lá dentro encontramo-nos com César Ponte. É ele a cara da bandeira portuguesa que se vê no interior da sede da EUPOL COPSS. O subintendente da PSP tem 40 anos e está aqui há já um ano e com mais outro pela frente de missão.

“Trabalho na área da unidade especial de polícia palestiniana”, diz. “Coadjuvo os comandantes dessa área”. Um trabalho de aconselhamento e transmissão de experiência acumulada em Portugal, mas também em missões noutros pontos do planeta, como Moçambique, São Tomé e Príncipe, Angola e Geórgia.

“A polícia palestiniana já se encontra a um bom nível. O que temos feito é limar algumas arestas, para que um dia possa vir a trabalhar sem necessidade de ajuda internacional”, aponta.

Pouco depois, é César Ponte o elogiado. “Tenho muita sorte em ter aqui um polícia de Portugal, que é extremamente bem visto, muito profissional. A missão e a polícia palestiniana têm muita sorte em tê-lo aqui”, realça Simon O’Connor, o irlandês que dirige a secção de aconselhamento policial da EUPOL COPPS.

Simon destaca também a evolução da polícia local. “O que estamos a tentar ajudar a criar não é uma força policial, mas um serviço policial. Que sirva as pessoas, não que as force”, sublinha. Um desafio para os oito mil homens e mulheres que integram este serviço.

Da academia ao Monte das Tentações

Fazemo-nos de novo à estrada, rumo ao Vale do Jordão. É lá que fica a histórica Jericó, uma das mais antigas cidades do mundo e de onde saem os novos agentes da polícia palestiniana.

A entrada do complexo da academia está cheia de carros e muita gente. Ao fundo, ouve-se música. O ambiente é de festa. E há razões para isso: daqui estão prestes a sair 557 novos agentes, entre eles 59 mulheres.

Na cerimónia de graduação, a presença feminina faz-se notar. Porque é a uma cadete que cabe o papel de discursar perante a multidão que envolve a praça.

Chama-se Asmaa Al-Awawdeh, tem 26 anos, e explica-nos depois que abandonou um curso de jornalismo para vir para aqui. “É um grande privilégio servir a polícia palestiniana”, diz, com ajuda de uma tradutora, assinalando que gostava de trabalhar na área de relações públicas.

O alemão Uwe Nie, conselheiro de treino policial da EUPOL COPPS, destaca em seguida que o papel da missão europeia é estar ao lado dos comandantes, não à frente deles. “Nós só estamos aqui para ajudar caso eles tenham alguma dúvida, alguma necessidade de treino especializado”, afirma.

Mas, em Jericó, a academia não é o único local de trabalho dos agentes europeus. Não muito longe, erguem-se os muros de uma prisão. Lá dentro, dizem-nos que é mais do isso. Descrevem-na como um centro de correção e reabilitação. Uma estrutura modelo na Cisjordânia, construída com fundos holandeses e onde os padrões de tratamento dos presos e detidos são europeus.

“O principal objetivo é auxiliar e ajudar o departamento prisional palestiniano a desenvolver mais o seu sistema penitenciário”, explica o sueco Lars Widholm, conselheiro da EUPOL COPPS nesta área, outra em que a missão está empenhada, tal como o desenvolvimento do sistema legal e judicial palestiniano.

O diretor do centro, Taysir Ostal Ali, faz-nos uma visita guiada pelas instalações. Com orgulho, mostra uma lavandaria, um centro médico bem equipado, salas de aula e oficinas de trabalhos manuais. Depois, oferece-nos outra visita, mas para lá dos muros, onde deixa cair as formalidades, após descobrir que há um português entre o grupo de jornalistas.

“De Portugal?! Cristiano Ronaldo! Ronaldo é o melhor. É o meu ídolo. Se ele algum dia sair do Real Madrid, mudo para o clube para onde ele for”, diz-nos num inglês esforçado, mas solícito, fazendo questão que nos sentemos na mesma gôndola do teleférico que sobe ao Monte das Tentações.

Lá do alto, temos uma vista desafogada da cidade. Ao fundo, dizem-nos, vê-se a Jordânia. Atrás de nós, encravado na montanha, está um mosteiro ortodoxo grego. Segundo a Bíblia, foi aqui que Jesus jejuou durante 40 dias e 40 noites e onde foi tentado por Satanás.

Oktoberfest na Palestina

Este é o ponto de referência cristão que nos leva a outro através do deserto. Porque a próxima paragem é Taybeh, a mais cristã das localidades palestinianas. Na pequena vila, de 1600 habitantes, detemo-nos num local insuspeito nestas paragens: uma pequena fábrica de Cerveja.

Somos recebidos por Canaan Khoury. É o mestre cervejeiro da empresa familiar, fundada pelo pai. Conta-nos que a família tem raízes aqui há 600 anos, mas que a mini fábrica só abriu depois de Nadim Khouri regressar dos Estados Unidos - para onde fora estudar - após a assinatura dos acordos de Oslo, em 1993.

“Não tivemos problemas quando abrimos em 1994. Agora a situação está cada vez pior”, diz Nadim. O filho explica depois que o maior desafio é o mesmo que enfrentam todos os palestinianos: a ocupação israelita e as consequências dela.

“Os israelitas controlam o acesso à água. Temos três colonatos em terras de Taybeh e eles têm acesso prioritário. Eles consomem maior parte da água. Nós ficamos com os restos”, aponta o Canaan, salientando que os palestinianos estão sujeitos a muitas restrições na exploração dos recursos do território.

Mas além de água, falta também a liberdade de movimento na região e ainda mais a liberdade de sair daqui ou de exportar o pouco que aqui se produz. “Custa-nos mais fazer chegar a cerveja de Taybeh ao porto, do que do porto a Tóquio, no Japão”, lamenta.

Ainda assim, a Taybeh, já está em doze países com cinco tipos de cerveja diferentes. Perguntamos se em Portugal é possível prová-la. Canaan diz que ainda não. O local mais próximo onde a marca chega é a  alguns restaurantes de Barcelona.

A irmã, Madees Khoury, explica que, mesmo apesar das dificuldades, a família não desiste de tentar crescer. “Realizamos uma Oktoberfest desde 2005. É um dos maiores eventos na Palestina. Taybeh é pequena mas em dois dias chegam oito mil pessoas”, conta.

Madees realça ainda que este “é mais do que um festival de cerveja”: “As pessoas passeiam na parte antiga, visitam as igrejas, comem nos restaurantes, apoiam organizações, ouvem música ao vivo, divertem-se.”  

De blindado até à área C

Terminada a jornada em Taybeh, voltamos a Ramallah, porque no dia seguinte, temos de trocar de viatura. O destino é Nablus. Uma viagem que feita em veículos blindados da EUPOL COPPS.  

Esta é uma zona tensa, recortado por colonatos guardados por militares (mais de duzentos, se contarmos com os chamados “postos avançados”, aqueles que até Israel considera ilegais). Mas também cheia de postos de controlo, vedações e barreiras.

A meio do trajeto o trânsito detêm-se. Na berma, está um carro de matrícula de Israel. À frente, um homem deitado na estrada. A polícia israelita tenta convencê-lo a desimpedir a via. Sem sucesso, acaba por detê-lo. E nós avançamos, só parando na esquadra da polícia palestiniana de Nablus.

Apesar de ter apenas 80 agentes, instalados em condições precárias, esta força patrulha uma vasta área com mais de 300 mil habitantes. Além da cidade, a esquadra tem sob sua alçada várias aldeias nos arredores e é para uma delas que seguimos, a bordo de uma viatura de patrulha da polícia locsal.

“Devemos passar pela área C, o que exige coordenação”, diz-nos um tradutor. A área C é uma vasta zona sob controlo israelita, que ocupa 60 por cento da Cisjordânia e divide grande parte do território palestiniano. Na prática, transforma vilas e cidades em ilhas. Um imenso arquipélago, em que muitas vezes é difícil navegar.

Algum tempo depois, paramos num dos limites da cidade. Aqui passa uma fronteira invisível, entre a área A (de controlo palestiniano) e a área C.

O trânsito prossegue, mas os carros da polícia não podem fazê-lo sem mais. “Estamos a pedir coordenação com Israel para podermos avançar”, explica um oficial, traduzido por um intérprete. Uma autorização que não chega, apesar da espera.

Aqui, o tempo é calculado em unidades de incerteza. Sem resposta, a patrulha é obrigada a inverter a marcha e nós forçados a regressar a Jerusalém.

Uma viagem que nos leva de novo até às portas deste país adiado. Rodeado por mais de 700 quilómetros de muros e vedações.

Uma barreira de segurança israelita, justificada para travar a infiltração de terroristas, ao longo da chamada “Linha Verde”. Mas um barreira ilegal aos olhos das Nações Unidas e descrita como um instrumento de segregação pelos palestinianos, que criticam também o facto dos muros terem encolhido ainda mais a Cisjordânia, por entrarem dentro deste território: em algumas zonas, até 20 quilómetros.

Setenta anos depois, este é um conflito sem fim à vista, que se alimenta de ressentimentos antigos, radicalismos históricos e religiosos e até de ódios cegos. Tanto de um lado como do outro do muro.