Infelizmente, a cimeira de todas as decisões, é ainda a cimeira das poucas decisões. Um muro continua a dividir países ricos e países pobres.

O “Comité de Paris” realizou a sua quarta reunião na quarta-feira. As posições foram ainda muito divergentes sobre a ambição do acordo e o papel dos diferentes países na redução de emissões de gases com efeito de estufa, bem como no financiamento e nos objetivos para a adaptação a um clima em mudança, transparecendo que estamos ainda longe do final do processo.

Assim vão os trabalhos em Paris. Muito ainda divide os quase 200 países presentes na capital francesa, mas, irremediavelmente, muito mais terá de os unir. 

As oportunidades de entendimento estão a esgotar-se. Há que agir, mais que não seja, para reagir aos processos naturais que já estão em curso.

O planeta aqueceu 0,8 graus centígrados desde 1880, 14 dos 15 anos mais quentes da história registada do planeta aconteceram neste século. Os oceanos estão a aquecer mais do que o previsto.

Os especialistas dizem agora que é nos oceanos que se vai jogar o futuro do planeta, ou melhor, dos seres humanos que nele habitam.

Por um lado, os oceanos armazenam o calor da atmosfera, por outro, têm absorvido uma quantidade significativa do CO2 emitido nas últimas décadas.

Ora, os oceanos começam a dar sinais de uma viragem. Com o calor armazenado tornam-se fonte de energia de tempestades e ciclones e com o dióxido de carbono que absorveram, e continuam a absorver, tornam-se ambiente cada vez mais hostil para a vida que suportam. É a chamada acidificação dos oceanos e resulta do excesso de CO2 nas águas do mar, com ela, a vida marinha tem a sobrevivência ameaçada.

Se, em Paris, for seguida a trajetória apontada voluntariamente pelos países, a temperatura global ainda deverá subir 2,7 graus centígrados até ao final do século. É demais. Significa ainda que os elementos naturais vão reagir, de forma violenta, na busca de um novo equilíbrio.

Porque, na verdade, é de equilíbrio que se trata. O planeta será sempre salvo, exatamente pela mesma rede de efeitos que ele próprio põe em marcha quando uma das variáveis é drasticamente alterada, neste caso, a temperatura.

Os fenómenos extremos são a reação natural a essa alteração e desencadeiam um processo conducente ao equilíbrio.

Os ciclones tropicais são um bom exemplo disso mesmo. Quando a temperatura do mar sobe aos 26,5/27 graus centígrados é posto em marcha um processo de evaporação que retira o calor em excesso nos oceanos. O mecanismo protege a vida dos mares.

Assim acontece com outros fenómenos, todos apontando para um novo equilíbrio. O problema é que nunca existiram tantos seres humanos a habitar neste planeta. O dado novo, na realidade, é a presença humana. É, por isso, que o que está realmente em causa é a sobrevivência humana e não a do planeta. Esse já provou que resiste a mudanças bem mais radicais.

É já certo, que o século XXI não será marcado pela previsibilidade e moderação climática do século XX, sobre isso não restam quaisquer dúvidas.

A adaptação é uma inevitabilidade, mas, algumas das consequências são ainda evitáveis.

Em Paris pretende-se que o mundo não aqueça mais do que 2 graus centígrados até ao final do século.

Mas, esta é ainda uma cimeira “morna”. Não o pode ser. Os povos do mundo não aceitam nada menos do que um acordo duradouro e eficaz. A corrida contra o tempo já começou, e o tempo está a esgotar-se em Paris.

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