O “Dia Zero” está a chegar para a Cidade do Cabo. A frase podia ser uma deixa de um filme de terror, mas desengane-se, caro leitor, porque esta história é bem real. O “Dia Zero” pode marcar o momento em que a água irá deixar de correr nas torneiras. A Cidade do Cabo pode tornar-se na primeira metrópole do mundo sem água.

“Dia Zero”: a expressão é usada quando a situação de seca num determinado local é tão grave que é necessário cortar o abastecimento de água. E nos últimos tempos, não se tem falado de outra coisa na Cidade do Cabo, a segunda cidade mais populosa da África do Sul (quatro milhões de habitantes) e onde vivem 22 mil portugueses. 

A cidade, que é uma das principais fontes frutículas e vinícolas da África do Sul, é conhecida pelas suas políticas de proteção ambiental e gestão cuidadosa da água. Mas isto não foi o suficiente para travar os efeitos de uma seca que já dura há três anos e que é considerada a pior em mais de um século.

Gráfico da NASA estima a quantidade de água que vai desaparecer na Cidade do Cabo

Depois de, há três semanas, as autoridades terem alertado que este dia iria chegar a 16 de abril, os habitantes reuniram esforços para reduzir drasticamente o consumo de água, conseguindo adiar a data por mais quase dois meses. Um comunicado do governo de 19 de fevereiro informou que o “Dia Zero” está agora agendado para 9 de julho.

Ainda que esteja agora umas semanas mais longe, a ameaça continua a pairar num horizonte próximo e poupar água é um mandamento fundamental no dia a dia da cidade.

Há varios meses que as autoridades implementaram medidas de racionamento e desde o início do mês, cada habitante só pode usar 50 litros de água por dia – antes o limite estava fixado em 87 litros de água. A ideia é que o consumo total da cidade se fixe nos 450 milhões de litros de água por dia.

Ora, para se ter uma ideia, pode-se gastar 50 litros de água num banho mais demorado ou em cinco descargas de autoclismo. Por isso, cada gota conta.

Portugueses explicam como vivem com este volume de água num dia inteiro

Quando só se pode gastar 50 litros de água por dia é necessário restringir a utilização de água ao que é estritamente essencial e reutilizá-la, das mais diversas formas, como nos explicou Rui Santos, técnico naval, natural de Aveiro, que vive na Cidade do Cabo há mais de 20 anos. 

Tomámos banho com um balde para assentar a água do banho e usamos essa água nos detritos sanitários, usamos as águas das lavagens da roupa para o jardim e usamos a água das chuvas com maior aproveitamento - quase toda a gente tem ou está em vias de ter um tanque de reserva de água. A água está em todo o espaço com uma grande responsabilidade."

Uma grande responsabilidade que existe nos gestos mais simples do dia a dia. O banho, por exemplo, é um dos momentos em que se gasta mais água. Na Cidade do Cabo, não pode demorar mais de dois minutos. 

Dá para tomar banho, mas um banho rápido, dois minutos ou coisa parecida, o que gasta à volta de 15 e 18 litros de água”, conta-nos João Viegas, de 63 anos, que vive na Cidade do Cabo desde a década de 70.

Outras atividades que também podem ser consideradas banais, como regar o jardim ou lavar o carro, são proibidas por estes dias.

Bem, lavagem de carros não há nada, é zero, não se pode usar. Até porque o pessoal está com o olho uns nos outros”, explica João Viegas.

São muitas as limitações e as mudanças nos hábitos diários devido à seca. Mas estes portugueses estão otimistas quanto ao futuro. Rui Santos considera que "de uma forma ou de outra, toda a gente está a saber lidar com a situação".

Tudo é possível, o Dia Zero pode vir a acontecer num cenário extremo de gravidade, mas todos temos uma percepção positiva, uma percepção de que isso não vai acontecer", sublinha.

 

 

Mas, afinal, o que acontece se o "Dia Zero" chegar?

O "Dia Zero" chegará quando os sistemas de armazenamento de água da cidade descerem para menos de 13,5% da sua capacidade. Atingido esse nível, que é considerado crítico, as autoridades vão pôr em prática um plano desenhado pelos serviços de emergência, por militares, epidemiologistas e outros especialistas em saúde pública.

A primeira medida será cortar o abastecimento de água a cerca de um milhão de casas, o que corresponde a 75% da cidade.

A cidade irá estabelecer cerca de 200 pontos para coleta da água. Através desses pontos, cada habitante poderá recolher 25 litros de água por dia.

Uma medida drástica, que irá custar muito dinheiro ao município. As estimativas apontam para que, em três meses, este sistema represente um custo de cerca de 13 milhões de euros. 

Outras localidades próximas da Cidade do Cabo, como Drakenstein ou Stellenbosch, também deverão ser afetadas.

 

Consulado português garante estar a acompanhar a crise 

Contactado pela TVI24, o cônsul-geral de Portugal na Cidade do Cabo, José Carlos Arsénio, afirmou que a comunidade portuguesa "tem encarado o problema da água com a devida seriedade". 

O responsável garantiu ainda que o Consulado tem vindo a acompanhar a crise e tem mantido um estreito contacto com as autoridades locais e com os cidadãos portugueses sobre esta matéria. 

Desde o início desta crise, o Consulado-Geral tem vindo a acompanhar todos os desenvolvimentos em torno da falta de água, assim como tem mantido um contacto estreito com as autoridades locais sobre esta matéria. Por outro lado, os contactos com a Comunidade Portuguesa têm sido constantes por forma a podermos ter uma visão clara sobre os efeitos desta crise nos nossos cidadãos e suas necessidades", sublinhou o cônsul-geral na resposta à TVI24.

 

Portugal em período de seca prolongado desde junho

A crise da água na Cidade do Cabo atingiu níveis tão preocupantes que esta é uma realidade que pode parecer um cenário muito distante. Porém, a verdade é que também o território nacional tem sido afetado por um período de seca prolongado que tem causado preocupação. 

Cerca de 9% do país está em seca extrema e 77% em seca severa, segundo dados preliminares do Instituto Português do Mar e da Atmosfera (IPMA) de meados de fevereiro.

De acordo com os meteorologistas, a situação em fevereiro "não está assim tão diferente" em relação a outros anos, mas "o problema" é que a seca severa "se mantém desde junho".

"E isto não é assim tão normal, já tivemos períodos de seca, mas esta é uma seca muito prolongada no tempo", disse Vanda Pires, especialista em seca do IPMA, à TVI24.

Os meses de março e abril são, normalmente, chuvosos, pelo que a situação deve melhorar brevemente. Mas poderá não ser o suficiente. 

O ministro do Ambiente de Portugal, João Matos Fernandes, garante que não vai faltar água nas torneiras dos portugueses graças às medidas em curso para combater os efeitos da seca, mas apelou à poupança.