O homem que se correspondeu com a polícia enquanto esteve escondido na gráfica em Dammartin-en-Goële , França, onde os irmãos Kouachi se barricaram depois do ataque ao jornal satírico «Charlie Hebdo», em Paris, foi entrevistado pela estação de televisão France 2, a quem contou o calvário por que passou.

O designer gráfico Lilian Lepère, de 26 anos, passou oito horas escondido debaixo de um lavatório, enquanto o edifício esteve ocupado por Cherif e Saïd Kouachi.

Do esconderijo, Lilian Lepère disse que não viu nada. O jovem só ouviu as vozes dos irmãos, quando um deles se aproximou e abriu as portas de um armário próximo.

Durante as oito horas que passou retorcido no espaço apertado, Lilian Lepère conseguiu entrar em contacto com a polícia através do telemóvel, enviando informações sobre a localização e as ações dos irmãos sem os alertar para a sua presença.

Num momento de cortar a respiração, um dos irmãos foi beber água ao lavatório.

«Eu conseguia ver a sombra dele. As minhas costas estavam contra o tubo e eu podia sentir a água a correr pelo tubo. Foi como se vê nos filmes. Nesse momento, o cérebro para de pensar, o coração para de bater, e você para de respirar».


Cuidadosamente, Lilian Lepère mandou um SMS ao pai: «Estou escondido no primeiro andar. Julgo que eles mataram toda a gente. Digam à polícia para intervir».

Dois dias de perseguições e cercos tiveram um fim abrupto e violento na quarta-feira, dia 7 de janeiro: com a morte dos irmãos Kouachi, autores do massacre no «Charlie Hebdo», e de um homem que tomou um supermercado judaico em Porte de Vincennes, a leste de Paris.
 

«Segui as instruções dos meus salvadores», afirmou Lepère à France TV Info. «No momento do assalto pela polícia, a minha primeira sensação foi de liberdade», revelou.

«Estive oito horas à espera que eles [a polícia] tomassem o edifício de assalto. Tinha uma dor enorme nas nádegas, nas pernas, nas costas ... em todo o lado», recordou.


Na entrevista, Lilian Lepère agradeceu ao gerente da gráfica, Michel Catalano, que o tinha avisado da chegada dos irmãos Kouachi.

«Sinto-me com sorte e feliz por ver a minha família», rematou Lepère.