Angela Merkel ganhou e este é o quarto capítulo consecutivo que escreve à frente do governo alemão. Mas ganhou sem o resultado que queria. Em minoria, e com a ascenção da extrema-direita ao parlamento pela primeira vez em mais de meio século, o tabuleiro político germânico está bem mais complexo. E complexo será para a chanceler conseguir aliados. Enquanto isso, a divisão na extrema-direita é evidente: apesar de ter alcançado a vitória de chegar ao Bundestag, a presidente da Alternativa para a Alemanha (AfD), Frauke Petry, já veio dizer que não quer ocupar o seu assento parlamentar.

A força política mais à direita conseguiu com 12,6% dos votos e não é, pelas razões óbvias, uma opção de coligação para Merkel. Com o SPD de Martin Schulz, que se demitiu do Parlamento Europeu para concorrer, também não pode contar. O partido teve o pior resultado desde a II Guerra Mundial e Schulz, o grande derrotado do dia, interpretou os resultados como um forçoso empurrão para ser oposição. Com os seus 20,5% de votos, impede que a extrema-direita seja o maior partido da oposição.

Com a sua aliada União Social-Cristã (CSU), da Baviera, a CDU de Merkel conquistou 33% dos votos, bastante menos do que os 41,5% de há quatro anos. Se uma coligação CDU-SPD fosse possível garantiria 53% dos votos e a chanceler teria a vida mais facilitada. Agora, terá de encontrar um ou mais parceiros para ter um governo de maioria ou então optar por prosseguir com um governo minoritário, o que deixa antever maiores dificuldades de governação.

As outras alternativas

Dado que os segundo (SPD) e terceiro (AfD) partidos mais votado não são uma hipótese, que alternativas tem? O maior desafio de Merkel está em convencer o Partido Liberal (FPD), que volta ao parlamento quatro anos depois, com 10,7% dos votos.

Este partido já tem um histórico de relação com a CDU de Merkel: no seu segundo mandato, entre 2009 e 2013, foi parceiro de coligação.  E poderá também tentar convencer os Verdes a entrarem na coligação (com o senão de o FPD não entrar nas graças deste partido). Até já lhes chamam a "coligação Jamaica" porque, juntas, as cores destes partidos lembram a bandeira do país caribenho.

Seria a primeira vez na história alemã que um tal acordo seria firmado. Algo muito exigente para os Verdes, que têm visões políticas diferentes em matéria de imigração e até em outras áreas como a indústria automóvel. Ao mesmo tempo, os políticos do FDP e dos Verdes estão a rejeitar publicamente a opção dessa "coligação Jamaica". Isto porque seria vista com ceticismo pelos membros do partido ambiental, que se inclinam mais para a esquerda do que a sua liderança. Já os liberais dizem que não aceitam uma coligação do género "a qualquer preço". 

É esperar para ver se Merkel tem argumentos conciliatórios. Ela que já reiterou que não vai deixar de fora das negociações os social-democratas do SPD, com o argumento de que a Alemanha precisa de um Governo estável e que essa também é uma responsabilidade dos outros partidos. Certo é que Schulz rejeitou sentar-se à mesa com vista a formar um governo minoritário. Veremos.

Há ainda o Die Linke (A Esquerda), com 9,2% dos votos, a completar as seis forças políticas que têm agora lugar no Bundestag, mas não será uma opção para coligação.

No pior dos cenários, se não houver fumo branco entretanto, as negociações podem arrastar-se até depois do Natal e a Alemanha arrisca-se a ir novamente a eleições.

A extrema-direita que ganhou e já está a perder

Estamos a enfrentar um grande teste com a AfD [extrema-direita] no parlamento"

É a própria Angela Merkel que o admite. Em democracia, o povo é quem mais ordena e a única vantagem para a chanceler é que a extrema-direita também pode levar algum tempo até se posicionar. 

As divisões de longa data dentro do partido são conhecidas e assumiram novos contornos esta manhã de segunda-feira, nem um dia depois das eleições. A  presidente da AfD. Frauke Petry, anunciou que não se sentará na bancada do seu partido.

Frauke Petry

Devemos estar conscientes sobre o facto haver diferenças de substância na AfD. Um partido anárquico ... pode ser bem sucedido na oposição, mas não pode dar aos eleitores uma oferta credível para o governo", cita a AP.

"Nazis, fora!"

O rebuliço no seio do partido de extrema-direita alemão é mais do que evidente, tal como a estupefação de muitos alemães perante os resultados eleitoral da Alternativa para a Alemanha. Ser o terceiro partido mais votado levou centenas de pessoas a saírem à rua em protesto na noite das eleições.

Gritou-se na capital que "toda a Berlim odeia os nazis" ou "o racismo não é uma alternativa".

Pouco depois do anúncio dos resultados provisórios, foram organizadas manifestações espontâneas em frente à sede do partido em Colónia, onde se concentraram cerca de 400 pessoas, em Frankfurt, Munique e Berlim.

Na capital alemã, um impressionante cordão policial foi montado para conter a manifestação de menos de mil participantes, concentrados em frente ao salão alugado pelo AfD para a sua noite de eleição, situado em pleno centro de Berlim. A TVI esteve lá em reportagem.

De notar que o voto na Alemanha não é obrigatório e que, ainda assim, 76,2% dos eleitores compareceram às urnas noe domingo para exercer o tseu direito democrático. A participação foi até maior do que nas eleições de 2013, quando ficou em 71,5%.

Parabéns de França a "vitória amarga"

Se o porta-voz do governo francês, Christophe Castaner, considerou que Angela Merkel teve uma “vitória amarga”. face a uma extrema-direita “muito violenta, muito dura, muito radical”, já Emmanuel Macron foi mais polido nos comentários. No Twitter, o presidente francês deu conta que telefonou a Merkel ainda ontem à noite. 

Vamos continuar decididamente a nossa cooperação, que é essencial para a Europa e para os nossos países"

Já o porta-voz do governo da segunda economia europeia tinha parabenizado, por um lado, e alfinetado, por outro, Angela Merkel, em declarações à rádio RMC e BFMTV.

 Antes de mais é preciso saudar a vitória de Angela Merkel. É a quarta e, em França, quando vemos um chefe de Governo ganhar quatro vezes achamos admirável. Seguidamente, vemos claramente que é uma vitória amarga. É amarga porque vê crescer uma extrema-direita muito violenta, muito dura, muito radical, na Alemanha ainda mais que noutro lado. É marcante".

Já o presidente da Comissão Europei reagiu, através de um porta-voz, que citou uma carta enviada à chanceler alemã. Jean-Claude Juncker defende que a União Europeia necessita “mais do que nunca” de um Governo alemão forte para enfrentar desafios.

O presidente [Jean-Claude] Juncker reitera a sua convicção de que, à luz dos importantes desafios mundiais, a Europa necessita mais do que nunca de um Governo alemão forte”.