Membros do Conselho das Comunidades Portuguesas (CCP) no Brasil disseram esta sexta-feira que os portugueses estão preocupados com o rumo da crise política no país e que as manifestações populares têm sido tranquilas até agora, mas podem mudar a qualquer momento.

“Os portugueses estão perfeitamente integrados na sociedade brasileira e, como os cidadãos brasileiros, a comunidade está preocupada com a situação do país”, declarou à Lusa Ângelo Leite Horto, conselheiro do CCP que reside no Rio de Janeiro há 52 anos.

O Brasil vive atualmente uma grande crise política, inclusivamente com manifestações nas ruas, que teve o seu ponto alto com a nomeação do ex-Presidente Lula da Silva como ministro da Casa Civil, para que tivesse foro privilegiado e, segundo a imprensa brasileira, assim travar a investigação que é alvo da Justiça através da Operação Lava Jato - que investiga um grande esquema de corrupção no país.

“A comunidade portuguesa do Rio de Janeiro, como de todo o Brasil, não tenho dúvida nenhuma, está muito apreensiva com o rumo que a situação pode tomar”, sublinhou ainda.

Para o conselheiro, “o Governo hoje está, de uma certa forma, a desafiar o judiciário, isso é muito complicado”.

“Estamos apreensivos com a situação do país, com a Presidente que temos e com o Lula (ex-Presidente Luiz Inácio Lula da Silva), ambos é que estão a acabar com o país”, afirmou a conselheira Teresa Pires Morgado, que mora há 52 anos em São Paulo e foi eleita para o CCP, pela primeira vez, em 2015.

“O judiciário está a investigar o Lula da Silva na Operação Lava Jato e, a seguir, de uma maneira muito rápida, o Governo o transforma em ministro da Casa Civil para ter o foro privilegiado, tiram atribuições de outros ministérios e passam para a Casa Civil para que Lula possa comandar”, declarou Ângelo Horto, natural de Mondim de Basto e que é conselheiro desde a criação do CCP.

“O povo está a ir para as ruas, o povo está descontente, o judiciário está descontente e, a câmara dos deputados criou ontem (quinta-feira) mesmo a comissão para dar seguimento ao ‘impeachment’ [destituição] da Presidente”, acrescentou Ângelo Horto.

Para Teresa Pires Morgado, que é de Sendim (Miranda do Douro) e está envolvida em várias entidades da comunidade portuguesa no Brasil, “a Presidente (Dilma Rousseff) colocou-se numa posição muito difícil, pois está a dar apoio a uma pessoa que não deveria ter dado (Lula da Silva) e é isso que o povo brasileiro está a reclamar”.

“Então, tudo isso, de uma maneira muito direta, preocupa os portugueses, pois esses são empregadores de uma grande massa de trabalhadores e isso (os desenvolvimentos da situação política do país) pode trazer problemas para as suas empresas, pode afetar muito”, sublinhou o conselheiro.

Ângelo Horto referiu ainda que uma parte substancial da comunidade portuguesa é idosa e vive de rendas de propriedades que adquiriram ao longo da vida, mas com a crise, essas propriedades poderão ficar sem inquilinos e também trazer problemas para esses portugueses.

Em relação às manifestações, Teresa Morgado disse que “está a ser até muito calmo”, há alguns problemas, mas no geral não há grandes incidentes e "está a ser a maior manifestação que já se viu no país.

“As manifestações têm sido, até agora, tranquilas, pois estão a ser integradas pela classe média, profissionais liberais, professores”, disse o conselheiro, que é empresário na área da indústria gráfica.

Entretanto, segundo Ângelo Horto, com as manifestações pró-PT que estão a ser planeadas para os próximos dias, “poderá haver conflitos”, referindo que muitas dessas pessoas são recrutadas pelo Partido dos Trabalhadores (de Dilma Rousseff), mesmo “sendo pagas para participar nesse movimento de apoio ao Governo”.