Uma revista israelita despediu o cartoonista por ter desenhado o primeiro-ministro de Israel e membros do seu partido como os porcos trinfantes do romance "Animal Farm" ("O Triunfo dos Porcos", na tradução portuguesa) do britânico George Orwell.

O cartoon reflete uma selfie de Benjamin Netanyahu e apoiantes seus do partido Likud, após a aprovação parlamentar da controversa legislação que outorga mais direitos aos judeus em Israel do que a outras minorias religiosas: o país é consagrado como nação judaica e o hebraico é a única língua oficial.

A ilustração do cartoonista Avi Katz, publicada numa revista do jornal Jerusalem Post, reflete a selfie e mostra Netanyahu e os seus partidários com caras e pés de porco . Em cima, está a célebra frase do romance de Orwell: "Todos os animais são iguais, mas alguns são mais iguais do que outros”.

Despedimento após 30 anos

O conhecido livro de Orwell, publicado em 1945, nos finais da Segunda Guerra Mundial, conta a história de animais que estão numa quinta e se revoltam contra o dono, um humano, que é expulso. Os porcos passam a liderar e rapidamente a gestão radica no autoritarismo. "Animal Farm" é visto como uma parábola à então União Soviética, após a morte de Lenine, com Estaline a tomar o poder, contra a oposição de Leon Trotsky, com cuja ideologia o escritor britânico se identificava.

O totalitarismo e a prepotência dos porcos de "Animal Farm" foram assim usados pelo cartoonista Avi Katz na sua última publicação na revista quinzenal, um trabalhoque tem agora recebido muito apoio online, mas também revolta, com alguns a sugerir que a ilustração é anti-semita, até porque o porco é um animal considerado impuro e proscrito na dieta judaica.

Após a polémica gerada à volta do cartoon, o Jerusalem Post divulgou que Avi Katz não iria trabalhar mais para a revista. É de referir que o cartoonista trabalhava para o grupo há mais de trinta anos.

Avi Katz é um cartoonista que trabalhou como freelancer no Jerusalem Post e, de acordo com considerações editoriais, foi decidido não trabalharmos mais com ele", adiantou um comunicado do jornal.

Apesar de toda a polémica e o posterior despedimento de Avi Katz, o cartoon até continuava no site da Jerusalem Report durante a tarde desta quinta-feira. Katz, por seu turno, limitou-se sobretudo a estranhar a atitude do jornal.

Achava que o cartoon era relativamente suave e que a minha demissão era idiota, mas estou feliz pelo enorme apoio que recebi nos últimos dias", diz Katz ao jornal britânico The Guardian.

 

 

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"Passo inaceitável"

O Sindicato dos Jornalistas de Israel pediu ao Jerusalem Post para reconsiderar “este passo inaceitável”.

Entretanto, Haim Watzman, um colaborador da revista Jerusalem Report demitiu-se como forma de protesto. Na carta de demissão que publicou no Facebook, disse que não poderia “ser associado a uma revista que abandona um membro da equipa simplesmente porque o seu trabalho incomodou alguns leitores. O jornalismo, quando é bem feito, irrita sempre alguns leitores, e é dever dos editores e diretores do jornal ou da revista apoiar os escritores e outros membros da equipa quando os leitores se queixam da análise e opiniões expressas pela equipa”.

A apoiar o cartoonista Katz, foi criada uma página de recolha de fundos (crowdfunding) na internet, que já angariou mais de 14 mil euros.