A comissão dos Assuntos Jurídicos do Senado norte-americano vai examinar a 4 de Março a possibilidade de abrir um inquérito sobre as derivas judiciárias da administração Bush, anunciou esta quarta-feira o presidente deste órgão, o democrata Patrick Leahy, escreve a Lusa.

«Nós não devemos ter medo de descobrir o que fizemos se quisermos continuar a ser uma nação vigilante na defesa tanto da nossa segurança nacional como da nossa Constituição», declarou o senador Leahy num discurso no Senado.

Comissão independente

A 9 de Fevereiro, Leahy indicou que desejava criar uma comissão independente de inquérito sobre as derivas, nomeadamente no interior das fronteiras americanas, da administração Bush no quadro da sua «guerra contra o terrorismo».

«Nada provocou tantos prejuízos à estatura da autoridade moral da América que a revelação que, neste últimos oito anos, abandonamos o nosso empenhamento histórico a favor dos direitos do homem, violando a lei», argumentou Leahy.

Associações de defesa dos direitos do homem e parlamentares multiplicaram desde o Outono os apelos à abertura de um inquérito sobre as escutas telefónicas autorizadas pelo executivo sem mandato da justiça nem do Congresso, o recurso à tortura nos interrogatórios antiterroristas ou ainda o afastamento de nove procuradores em 2006 por razões políticas.

Recurso à tortura

Leahy precisou que pretendia inquirir também sobre o programa de transferência de detidos para interrogatórios levada a cabo pela CIA, os maus tratos na prisão de Abu Ghraib no Iraque, a destruição de documentos ou a redacção de notas internas que justificaram essas derivas, nomeadamente o recurso à tortura.

«Ninguém está acima das leis»

Interrogado a 9 de Fevereiro sobre a eventualidade de uma comissão de inquérito, o Presidente Barack Obama declarou: «a minha posição geral é de dizer: (...) viremos a página». «Mas penso também que ninguém está acima das leis», acrescentou, pronunciando-se a favor de acusações judiciais no caso de violações graves.

«Devemos ler a página antes de a voltarmos», afirmou esta quarta-feira Leahy, defendendo que o «objectivo da comissão seja o de encontrar a verdade». Precisou que esteve em contacto com a Casa Branca sobre esta questão.

«Saber se foram cometidos crimes»

Para si, o inquérito da comissão deverá ultrapassar a «questão de se saber se foram cometidos crimes» e dedicar-se sobre os «erros» que foram cometidos «de maneira a não repeti-los».

Uma sondagem Gallup de 12 de Fevereiro mostrou que cerca de dois terços dos norte-americanos são favoráveis à abertura de um inquérito sobre os métodos utilizados pela administração na sequência dos atentados do 11 de Setembro de 2001.