O alto comissário da ONU para os Refugiados, António Guterres, elogiou esta terça-feira a "metodologia razoável" adotada por Portugal para receber refugiados, que passa pelo envolvimento de vários setores da sociedade.

"Pode não ser a metodologia ideal, mas é uma razoável", comentou o responsável, numa conferência de imprensa em Bruxelas, em relação à necessidade de os países fazerem uma "integração efetiva" de refugiados.


Na sua recente deslocação a Portugal, Guterres notou a criação de uma plataforma, que mobiliza desde a sociedade civil, à igreja católica, organizações não-governamentais e autarquias para garantirem a integração de refugiados.

Nas propostas de Bruxelas, Portugal deverá receber cerca de cinco mil pessoas.

O dirigente das Nações Unidas insistiu na necessidade de dar atenção à Sérvia, que está a receber milhares de pessoas diariamente, "sem capacidade de absorção e sem ser um país rico", o que pode levar o país a uma "situação impossível".

Caso não se tomem medidas de ajuda à Sérvia, "criam-se oportunidades para contrabandistas" para levarem os refugiados por novas rotas europeias.

"Queremos soluções sustentáveis", argumentou António Guterres reafirmando a sua sugestão de um "plano B" depois da falta de unanimidade, no conselho extraordinário de segunda-feira, entre os ministros do Interior europeus para a recolocação de mais 120 mil refugiados.


"Um plano B é necessário", resumiu o responsável, notando haver países voluntários para receber pessoas, pelo que a recolocação deve aumentar assim que os mecanismos para receber pessoas estejam operacionais.

Guterres quer que as "pessoas possam ser bem recebidas" imediatamente na Grécia e na Itália e que daí se faça a recolocação, ressalvando estar também a apelar aos países do Golfo Pérsico e à América do Norte para receberem refugiados.

 O alto comissário das Nações Unidas para os Refugiados diz que deixa Bruxelas com um “duplo sentimento”, de frustração por a União Europeia tardar em responder à atual crise, mas de determinação em encontrar soluções alternativas.

Em declarações após um encontro com o presidente da Comissão Europeia, Jean-Claude Juncker, António Guterres, que hoje já participara numa audição no Parlamento Europeu, disse ter sido “muito desagradável ver que o Conselho Europeu de ministros dos Assuntos Internos não foi capaz de tomar um conjunto de decisões absolutamente essenciais, que estariam longe aliás do desejável, mas que seriam a base mínima para haver uma resposta europeia à crise que a Europa enfrenta de movimentos de refugiados e de imigrantes”.

“Mas ao mesmo tempo, (com um sentimento) de determinação, na medida em que não podemos assistir a este impasse sem agir, e por isso a proposta que fiz ao presidente da Comissão, aos diferentes comissários e à Alta Representante (da UE para os Negócios Estrangeiros) é que se passe imediatamente a um plano B”, apontou.


Preconizando então um plano alternativo que passe pela criação e capacitação de centros de receção, sobretudo na Grécia, e através de um acordo com a Sérvia, e “imediata recolocação” de refugiados – dos 40 mil já aprovados formalmente, mas também eventualmente antecipando já quotas dos países “que já disseram que aceitariam participar” no acolhimento de mais 120 mil -, Guterres disse acreditar que desse modo se crie finalmente uma dinâmica europeia.

“Se começarmos a agir imediatamente, eu estou convencido que depois o processo de decisão acabará por ratificar este movimento e que a Europa será capaz de responder. Mas essa determinação neste momento é absolutamente indispensável. Não podemos esperar porque vivemos numa situação de caos e confusão que causa enorme sofrimento às pessoas e dá uma péssima imagem da Europa”, insistiu.


Segundo o responsável da ONU, “as divisões no seio da UE começam infelizmente a repetir-se a propósito de muitos temas e essa é uma tragedia para a Europa”.

“Se a Europa não for capaz no mundo de hoje”, com tantos desafios de vária ordem, “de agir unida, a Europa perderá cada vez mais relevo na comunidade internacional e acabará por ter uma influência cada vez menor naquilo que se passa no mundo”, advertiu.