No período de explosão do punk rock britânico, os The Clash perguntavam: “Should I Stay or Should Go” (Devo ficar ou devo partir?). A canção pode muito bem servir de banda sonora aos britânicos esta quinta-feira: afinal, deve o Reino Unido ficar ou sair da União Europeia? O referendo que o vai decidir realiza-se esta quinta-feira, mas, apesar de o termo ser recente, a ideia do "Brexit" não é nova, antes pelo contrário. A relação entre o Reino Unido e a União Europeia assemelha-se a um casamento sem amor e, tal como a música dos The Clash, é preciso recuar à década de 70 para perceber o início desta história conturbada.

O termo "Brexit" ganhou popularidade nos últimos tempos, embalado pelo Grexit de que tanto se falou no ano passado – sobre uma eventual saída da Grécia da União Europeia (UE). Mas a verdade é que se fala sobre a saída do Reino Unido da UE praticamente desde a entrada do país na então Comunidade Económica Europeia (CEE) em 1973 – na altura com o primeiro-ministro Edward Heath.

Desde então, esta relação conheceu mais baixos do que altos. É certo que Londres nunca se divorciou realmente do projeto europeu, mas preferiu manter um olhar distante sobre as políticas comuns que foram sendo desenhadas em Bruxelas.

Prova disso mesmo é que preferiu ficar fora da moeda única, não quis integrar o Espaço Shengen, nem participar nas políticas do âmbito da Justiça ou dos Assuntos Internos.

O primeiro referendo sobre a UE

A primeira consulta popular sobre a integração do Reino Unido na comunidade europeia aconteceu dois anos depois da adesão. Foi com o governo do trabalhista Harold Wilson, que, à semelhança do que aconteceu agora com David Cameron, tinha prometido um referendo se fosse eleito.

A 5 de junho de 1975 os britânicos foram chamados a votar e a escolher entre o “Sim” ou o “Não” à CEE. Tanto Wilson como a líder dos conservadores, Margaret Thatcher apelaram ao “Sim” e este venceu com larga vantagem - 67% dos votos.

Os britânicos queriam continuar na CEE, mas não estavam dispostos a aceitar tudo e deixaram isso bem claro com o governo de Margaret Thatcher. Nesta altura, estalou um clima de tensão entre o país e a comunidade europeia.

A primeira-ministra britânica defendia que o Reino Unido dava mais dinheiro aos cofres comunitários do que aquele que recebia e que países como França ou Alemanha tiravam maior partido dos subsídios agrícolas. Por isso, exigiu uma compensação financeira. Bruxelas acedeu: o “cheque britânico” foi obtido em 1984 e vigora ainda hoje. E uma frase da “Dama de Ferro” ficou para a História: “Quero que me devolvam o meu dinheiro”.

A primeira de várias condições especiais

O “cheque britânico” foi uma das primeiras condições especiais obtidas pelo Reino Unido como membro da CEE. Abriu-se um precedente e, a partir daqui, os britânicos começaram a desenhar as linhas que, de certa forma, os afastaram do projeto europeu.

Ficar fora da moeda única foi outra das imposições, conseguida pelo então primeiro-ministro John Major durante as negociações do Tratado de Maastricht, em 1992. Ao Reino Unido seguiu-se a Dinamarca.

Depois do euro, seguiu-se a nega ao Espaço Schengen, quando este se estabeleceu em 1997, com o Tratado de Amesterdão - um acordo entre os países europeus sobre uma política de abertura das fronteiras e livre circulação de pessoas. E na altura era Tony Blair, um dos governantes britânicos mais europeístas, que residia em Downing Street.

Mais, o Reino Unido não participa nas políticas de Justiça e Assuntos internos - ou só participa sob certas condições -, juntamente com a Irlanda e a Dinamarca. E em 2007, obteve duas derrogações em relação ao Tratado de Lisboa.

O referendo de Cameron

Recentemente, o estatuto do Reino Unido voltou a ser questionado por David Cameron. O referendo que se realiza esta quinta-feira foi, de resto, uma promessa eleitoral do primeiro-ministro.

Cameron afirmou, em janeiro de 2013, que caso fosse reeleito iria renegociar os termos da participação do país na comunidade e prometeu uma consulta popular sobre esta matéria. E foi logo no discurso de vitória das eleições de 2015, que garantiu a concretização desta promessa.

E ainda que Bruxelas tenha conseguido um acordo com Londres para satisfazer as preocupações do líder conservador, a ideia de um referendo avançou e começou a agitar o velho continente.

“The end” ou “to be continued”? 

Apesar de as últimas sondagens, divulgadas esta semana, mostrarem uma tendência a favor da permanência na União Europeia, os especialistas não arriscam um resultado. Isto porque, ainda na semana passada, as sondagens tinham mostrado precisamente o contrário: uma vantagem a favor da saída.

Está tudo em aberto: o casamento entre o Reino Unido e a União Europeia poderá ultrapassar mais uma crise ou, pelo contrário, acabar em divórcio. 

Perante um cenário de "Brexit", os mais pessimistas falam no princípio da desintegração europeia. Os mais otimistas defendem que a UE irá sobreviver, ainda que o acontecimento possa trazer mazelas.

Certo é que nunca nenhum país saiu da União Europeia e as consequências são imprevisíveis.

Esta quinta-feira é um dia decisivo. É tempo de decidir: "Should I stay or should I go?".