Se há que separar as águas, será caso para dizer que a primeira-ministra britânica está a fazer render o peixe. E a própria Theresa May não o escondeu, numa animada sessão parlamentar, esta quarta-feira, mesmo quando confrontada pelos "tubarões" da oposição política.

Não tomaremos decisões enquanto não estivermos preparados e não vamos revelar a nossa posição prematuramente", sustentou Theresa May no parlamento, à guisa de querer pôr um ponto final no debate.

Em causa, estão as negociações para a saída do Reino Unido da União Europeia (UE). Com base no referendo que decidiu o Brexit, Theresa May não admite qualquer retrocesso. Mas também já fez saber que não tem pressa.

Frente aos deputados, esquivou-se a dizer se pretende negociar um estatuto que permita aos britânicos manterem o livre comércio no espaço europeu, o chamado Mercado Único, criado em 1992. Disse apenas que tentará obter "um acordo justo". Sendo certo e sabido que quer controlar as fronteiras do país. 

O que quero para o Reino Unido é que ponhamos em prática o voto do povo para sair da União Europeia e que consigamos o acordo justo sobre a troca de bens e serviços com a UE, num relacionamento que estamos a construir com eles. E que possamos controlar o movimento de pessoas da UE para o Reino Unido", afirmou Theresa May, em resposta às perguntas dos deputados.

Oposição sem desarmar

Apesar das esquivas, a oposição tudo fez para obter resposta sobre a continuidade ou não do Reino Unido no mercado comum.

Fiz à primeira-ministra uma pergunta muito, muito simples", sublinhou Angus Robertson, líder parlamentar do Partido Nacional Escocês (SNP), recebendo em troca a mesma postura de Theresa May.

Igual sorte teve o líder trabalhista Jeremy Corbyn, quando tentou por outro caminho arrancar uma resposta cabal à primeira-ministra, já que, para esta, a invocação do artigo 50 do Tratado de Lisboa, o qual permite a um país sair da União Europeia, é uma decisão do governo britânico que dispensa a consulta do parlamento.

Pode a primeira-ministra dizer ao parlamento, qual é a atual posição do governo?", questionou Corbyn, sem que Theresa May adiantasse mais sobre o assunto.

Divergências no governo

Pano de fundo para o animado debate na rentrée do parlamento britânico são as aparentes dissensões verificadas entre os ministros britânicos. Em particular, por parte de David Davis, um eurocético que tem a seu cargo a pasta da saída da União Europeia.

Terça-feira, Davis defendeu que a União Europeia deveria ser notificada da saída do Reino Unido, "antes ou no início do próximo ano". E que, se "o resultado ideal" das negociações será a manutenção do comércio sem tarifas com o espaço europeu, tal apresenta-se como "muito improvável", como frisara na véspera no parlamento.

As palavras do ministro levaram entretanto a presidência do governo britânico a fazer saber que se trata apenas da "sua opinião" e "não necessariamente a política" do executivo.