As ondas de choque provocadas pelo resultado do referendo britânico, na passada quinta-feira, continuam a ameaçar a integridade do Reino Unido. Num momento sem precedentes na história, registam-se movimentos dispostos a referendar a permanência de territórios sob a alçada da coroa britânica.

Os escoceses, que há dois anos escolheram permanecer no Reino Unido, representam, agora, a maior ameaça à união dos reinos da Grã-Bretanha. Uma sondagem divulgada, este domingo, pelo Sunday Times revela que a maioria quer agora a independência.

Mais de 60 por cento dos escoceses escolheram permanecer na União Europeia, no referendo do Brexit. Obrigados a seguir o que a maioria dos britânicos escolheu, de acordo com os números hoje divulgados, 52 por cento escolheriam abandonar o Reino Unido.

Nicola Sturgeon, primeira-ministra da Escócia 

A primeira-ministra escocesa, Nicola Sturgeon disse, este domingo, que é da sua responsabilidade negociar com a União Europeia para tentar proteger os interesses da Escócia. Acrescentou, também, que irá falar com os representantes de Bruxelas nos próximos dias.

O meu desafio, agora, como primeira-ministra é entender como proteger melhor os interesses da Escócia, como posso prevenir que sejamos afastados de U.E, contra a nossa vontade, com todas as consequências profundas e dolorosas associadas a essa decisão”, disse Nicola Sturgeon à BBC.

Brexit “abala” o partido trabalhista

Alguns ministros do governo-sombra do Partido Trabalhista apresentaram demissão e o próprio líder do partido, Jeremy Corbyn, viu-se obrigado a despedir o ministro dos Negócios Estrangeiros, que fez declarações negativas acerca da posição tomada pelos trabalhistas e, sobretudo, por Corbyn.

Depois da vitória de 52% do “Não” quanto à permanência do Reino Unido na UE, o partido da oposição também atravessa momentos conturbados.

Durante a noite, o líder dos Trabalhistas demitiu o seu ministro-sombra com a pasta dos Negócios Estrangeiros, Hillary Benn, e, agora, poderá estar à beira de perder, pelo menos, metade da sua equipa.

“Não há confiança de que ganharemos as próximas eleições se Jeremy se mantiver como líder”, disse Hillary Benn à BBC. “Num telefonema, disse-lhe que tinha perdido a confiança na sua capacidade de liderança e ele demitiu-me”

Acusado de ter estado completamente “apagado” na campanha pela permanência na UE – os críticos dizem que apareceu demasiado tarde e sem grande convicção. Corbyn já tinha sido alvo de uma moção de censura que será discutida na segunda-feira, numa reunião do partido e, caso seja aprovada, deverá ser votada terça-feira pelos deputados eleitos, através de voto secreto.

Jeremy Corbyn, líder do partido trabalhista do Reino Unido

Quanto a outros representantes do partido, a ministra da Saúde, Heidi Alexander, foi a primeira a anunciar a demissão nesta manhã de domingo. Seguiu-se a de Gloria De Piero, que tem a pasta dos Jovens e do Recenseamento Eleitoral, mas as contas não deverão ficar-se por aqui, segundo noticiam meios de comunicação britânicos como o The Guardian e a BBC.

A comunicação social britânica refere que cerca de metade do governo-sombra está a preparar a demissão, como uma tentativa de levar Cobyn a renunciar ao cargo.

Ao contrário dos conservadores, os membros do Partido Trabalhista estavam unidos pela permanência do Reino Unido na UE e, esse facto, segundo declarações aos media, deveria ter sido valorizado e repercutido em campanhas mais ativas.  

“Muitos eleitores ou não o ouviram, ou não perceberam o que ele quis dizer”, acusou Peter Mandelson, ex-ministro de Tony Blair e antigo comissário europeu, que acusou Corbyn de ter passado “mensagens ambíguas”.

O próprio ex-primeiro-ministro Trabalhista Tony Blair queixou-se que Jeremy Corbyn, que foi eleito para a liderança do partido em Setembro passado, fez uma campanha “muito morna”.

No sábado, o líder trabalhista veio a público para desmentir os rumores sobre a sua saída. Corbyn garantiu que permanecerá na liderança do partido, independentemente do resultado obtido no referendo da passada quinta-feira. Agora tudo está em aberto com as contínuas demissões dos seus braços-direitos.