O presidente do Brasil afirmou, este sábado, que o áudio da conversa usada entre o empresário Joesley Batista, da empresa JBS, e Michel Temer sobre o alegado pagamento de uma mesada ao ex-deputado Eduardo Cunha, foi manipulado. Em conferência de imprensa, Michel Temer anunciou ainda que pediu ao Supremo a suspensão do inquérito de que é alvo, enquanto se verifica a autenticidade da gravação.

Li hoje no jornal 'Folha de S.Paulo' notícia de que perícia constatou que houve edição no áudio de minha conversa com o sr. Joesley Batista. Essa gravação clandestina foi manipulada e adulterada com objetivos nitidamente subterrâneos. Incluída no inquérito sem a devida e adequada averiguação, levou muitas pessoas ao engano induzido e trouxe grave crise ao Brasil. Por isso, no dia de hoje, estamos entrando com petição no Supremo Tribunal Federal para suspender o inquérito proposto até que seja verificada em definitivo a autentiticidade da gravação".

O Supremo Tribunal Federal já anunciou que não se vai pronunciar por enquanto sobre a declaração do presidente.

Em conferência, o presidente brasileiro referiu ainda que o autor da gravação está "livre" nos EUA e que colocou o Brasil de novo "na incerteza".

Está livre e solto nas ruas de Nova Iorque. Não passou nenhum dia na cadeia, não foi preso, não foi julgado nem punido. E pelo visto não será. Ele cometeu o crime perfeito. Enganou os brasileiros e agora mora nos Estados Unidos. Quero observar a todos vocês as incoerências entre o áudio e o teor do depoimento. Isso compromete a lisura de todo o processo por ele desencadeado.", reiterou.

O chefe de Estado brasileiro afirmou ainda que não deixará a Presidência do país. "Digo com toda segurança, o Brasil não sairá dos trilhos. Eu continuarei à frente do governo".

Em pouco mais de dez minutos, o presidente do Brasil tentou defender-se e terminou o seu discurso a tentar mudar o foco para o que classifica de recuperação económica do Brasil. Após a conferência, Michel Temer reuniu-se com ministros do governo e parlamentares aliados no Palácio da Alvorada.

Em entrevista à Band News, o advogado de Temer atrapalhou-se quando questionado do porquê de o dono da JBS - agora considerado um "criminoso conhecido de longa data" por Temer - ter conseguido entrar no Palácio da Jaburu sem que tenha sido feito qualquer registo da entrada, em modo sigiloso e por volta da meia-noite.

Isso terá que perguntar ao presidente", afirmou.

Depois do discurso de Temer, a JBS anunciou que vai divulgar, a qualquer momento, uma nota em resposta à declaração de Michel Temer. Para já, a assessoria da empresa adianta que tem uma cópia da gravação na íntegra que irá disponibilizar.

Também Eduardo Cunha, ex-deputado e ex-presidente da Câmara, se pronunciou em relação à acusação de Joesley Batista que estaria a receber uma mesada para se manter em silêncio. Na referida carta, Cunha diz que repudia "veemência as informações divulgadas de que estaria recebendo qualquer benefício para me manter em silêncio."

Estou exercendo o meu direito de defesa, não estou em silêncio nem ficarei", escreve Eduardo Cunha, acrescentando que não está "alinhado com nenhuma versão de factos que não sejam os verdadeiros".

Por sua vez, o ex-presidente brasileiro Luiz Inácio Lula da Silva defendeu o rápido afastamento de Michel Temer da presidência do país e prometeu defender a realização de eleições diretas para a escolha do próximo chefe de Estado.

Nós queremos eleições diretas, queremos que o Temer saia logo. Não queremos um presidente eleito indiretamente [pelo Congresso brasileiro], mas pelo povo brasileiro. Seja quem for, não importa quem for. Podemos até perder, mas que seja em processo democrático”, disse Lusa da Silva, citado pela agência Efe.

“Podem ter a certeza de que estarei na trincheira com vocês para recuperar a democracia neste país”, acrescentou.

Michel Temer reiterou, na sexta-feira, que não está envolvido em nenhum tipo de crime e que os recursos que financiaram as suas campanhas eleitorais foram declarados de acordo com a lei.

Num comunicado emitido pela Presidência da República é sublinhado que “Michel Temer não recebeu valores, a não ser os permitidos pela Lei Eleitoral e declarados ao Tribunal Superior Eleitoral. Portanto, não tem envolvimento em nenhum tipo de crime".

O Presidente responde assim a novas acusações contra si baseadas em testemunhos de responsáveis da produtora de carne brasileira JBS que revelam subornos a milhares de políticos de partidos de todo o espetro parlamentar.