A campanha para as eleições brasileiras deste ano tem sido uma das mais disputadas. Há mesmo quem diga que é uma das mais truculentas da era democrática. A justiça eleitoral brasileira viu-se mesmo obrigada a intervir, já nesta segunda volta, e a dar um «puxão de orelhas» aos candidatos, obrigando-os a amenizar o discurso e as críticas pessoais. Passamos em revista alguns dos temas que aquecem o debate entre Dilma Rousseff e Aécio Neves



«Candidata dos pobres» vs «candidato dos ricos»

A sondagem Datafolha (do jornal «Folha de São Paulo» e da TV Globo) divulgada esta segunda-feira mostra as diferenças de perceção que os brasileiros têm dos dois candidatos na corrida às presidenciais no Brasil. De acordo com a sondagem, a maioria dos eleitores acredita que Dilma Rousseff é quem mais defenderá os pobres, em caso de reeleição, enquanto Aécio Neves defenderá os mais ricos, se for eleito.

De acordo com a sondagem, 57% dos inquiridos diz que Dilma é a candidata que mais apoiará os mais pobres. Apenas 26% está convencida que o candidato mais amigo dos mais pobres é Aécio Neves. Três por cento acreditam que ambos defenderão a classe mais pobre e 8% não acredita em nenhum dos dois para o fazer.

A mesma sondagem mostra que 56% dos inquiridos acreditam que o candidato do PSDB é o que mais defenderá os ricos, contra 17% que atribuem essa faceta a Dilma. Sete por cento acreditam que ambos defenderão os ricos e outros 7% acreditam que nenhum dos dois o fará.

Para esta diferença de perceção, em muito contribui as diferenças de discurso, com Dilma a elogiar os programas sociais que Lula da Silva e ela própria implementaram ou dinamizaram, comparando-os com os do antigo presidente Fernando Henrique Cardoso, então eleito pelo PSDB (partido pelo qual se candidata agora Aécio Neves). «Temos diante de nós dois projetos: um que já governou o país e outro que governa; não estamos aqui comparando abstrações, estamos comparando o que de concreto ocorreu no Brasil», disse a candidata do Partido dos Trabalhadores, na última sexta-feira, numa ação de campanha, em Florianópolis.

«E o Brasil de hoje é forte porque distribuiu renda, é predominantemente um país de classe média», caraterizou.

De acordo com os analistas, será precisamente essa classe média de que fala Dilma a decidir as eleições no próximo domingo. E Aécio está ciente da sua importância. «Movido à base de pesquisas, o presidenciável tucano Aécio Neves definiu os rumos de sua campanha. Direciona o discurso aos brasileiros que ascenderam socialmente e se encontram nos pisos inferiores da classe média. Difunde a tese segundo a qual Dilma Rousseff tornou-se uma ameaça ao sonho dessas pessoas de continuar progredindo», escreve o especialista em marketing político, Diego Pereira, no blogue «Voto a Voto». 



«Bolsa Família»

Os temas que têm aquecido o debate eleitoral na última semana, têm sido precisamente os temas sociais. Com petistas e tucanos a reavivarem uma acesa discussão sobre a paternidade de projetos como o «Bolsa Família». PT e PSDB disputam a autoria do projeto há anos, com os primeiros a procurar identificar o programa com o Governo Lula, os últimos a lembrar que a sua génese está no programa «Bolsa Escola», do Governo Fernando Henrique Cardoso.

Aécio Neves voltou a fazer esta defesa, durante o último debate com Dilma Rousseff. «Se fizermos um raio-x do DNA do Bolsa Família, o pai será o presidente Fernando Henrique e a mãe, Ruth Cardoso», disse Aécio.

Dilma reagiu com indignação e afirmou não ter cabimento a afirmação do tucano. Disse ela que o «Bolsa Família» apoia 50 milhões de pessoas e o «Bolsa Escola» apoiou cinco milhões. «Aí passou de todos os limites, já estamos na fabulação», disse a presidente durante o debate na TV Bandeirantes, no último dia 14 de outubro.



Mas o que é, afinal, o «Bolsa Família»? Comparando com a realidade portuguesa, podemos dizer que o «Bolsa Família» está para o Brasil como o Rendimento Social de Inserção está para Portugal. É «um programa de transferência direta de renda que beneficia famílias em situação de pobreza e de extrema pobreza». Tem como especiais destinatárias as famílias com rendimento mensal per capita inferior a 77 reais (cerca de 24 euros). O dinheiro é facultado às famílias mensalmente, e pode ser movimentado com um cartão «preferencialmente emitido em nome da mulher». O valor do subsídio varia consoante o tamanho da família, as idades dos integrantes e o rendimento.

O programa prevê ainda acesso a direitos sociais básicos nas áreas de educação, saúde e assistência social. Há benefícios específicos para famílias com crianças, jovens até 17 anos, grávidas e mães que amamentam.

Segurança pública e violência

As questões relacionadas com segurança pública sempre dividiram os brasileiros. Durante esta campanha eleitoral, o tema tem estado algo arredado, muito por culpa da sobreposição de outros assuntos, sobretudo os relacionados com escândalos de corrupção como o da Petrobras. 

Mas, no último domingo, durante o debate na TV Record, as estatísticas de violência foram trazidas à baila por Aécio Neves. O candidato do PSDB lembrou que, desde o momento em que referia o assunto e até final do debate, mais duas mães chorariam a morte dos seus filhos. 



Dilma garantiu, então, que o Governo federal tem vindo a investir cada vez mais em segurança pública e comparou esse investimento com aquele que foi feito po Fernando Henrique Cardoso, quando foi presidente eleito pelo PSDB. Dilma Rousseff trouxe também para cima da mesa o tema da segurança pública em Minas Gerais, onde Aécio foi Governador. Segundo a candidata, durante a gestão tucana, a taxa de homicídios no Estado aumentou e apenas 400 municípios têm esquadra de polícia.



Seca em São Paulo

A falta de água em São Paulo aqueceu também o início desta última semana de campanha. A crise hídrica em São Paulo pode mesmo custar a eleição a Aécio Neves, já que o Governo estadual, do PSDB (Partido da Social Democracia Brasileira), que também apoia Aécio, está a ser culpabilizado pelo arrastar da situação.

Dilma Rousseff (PT – Partido dos Trabalhadores) tinha assegurado que não ia explorar o tema «de forma eleitoreira», mas passou a explorar o tema para resgatar votos que eventualmente Aécio Neves estaria a conquistar, depois de declarações da presidente da Sabesp (concessionária dos serviços básicos de São Paulo), Dilma Pena, em que admitia que pode faltar água na região durante o mês de novembro. Fontes petistas, citadas pelo jornal «Estado de São Paulo», afirmam que há sondagens a mostrar que a declaração de Pena tem aumentado a rejeição a Aécio no estado de São Paulo.

Caso Petrobras

O caso Petrobras está já a ser encarado como um segundo «Mensalão» e há mesmo quem diga que é pior. Tudo começou quando foram tornadas públicos os primeiros depoimentos do ex-diretor da empresa energética estatal Paulo Roberto Costa, que falava em desvios de dinheiros públicos para financiamento de partidos e de campanhas políticas. Uma espécie de saco azul que beneficiaria diretamente o PT de Dilma Rousseff, mas também o PMBD e o PP (parceiros de coligação do PT no Governo e que tenta reeleger Dilma).

Dilma sempre disse desconhecer tal saco azul e o financiamento das campanhas eleitorais do PT através da Petrobras. Na última semana, porém, numa conferência de imprensa, admitiu pela primeira vez que houve desvios na Petrobras, embora sem falar do destino do dinheiro. 



«Se houve desvio de dinheiro público, nós queremos ele de volta. (…) Tomarei todas as medidas para ressarcir tudo e todos. Farei todo o possível para ressarcir o país», prometeu.

Também na última semana, ficou a saber-se que o escândalo não afeta apenas a candidatura de Dilma e que pode beliscar também Aécio. Um novo trecho do depoimento de Paulo Roberto Costa à Polícia Federal atinge o PSDB. De acordo com relato de Costa, publicado pela «Folha de São Paulo», o ex-presidente do parido, o então senador Sérgio Guerra, que integrava uma Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) no Senado em 2009, o teria procurado para cobrar 10 milhões de reais (quase 3,2 milhões de euros) para ajudar a encerrar a investigação contra a estatal. A CPI investigava irregularidades nas obras da refinaria Abreu e Lima, em Pernambuco. 



Sérgio Guerra, que morreu este ano vítima de cancro, teria recebido os recursos em 2010 (o chamado «caixa dois» cobrado a uma empreiteira) para financiar as campanhas do PSDB, quando Guerra estaria a coordenar a campanha de José Serra nas presidenciais que elegeram Dilma.