Uma menina de 12 anos, que entra na versão brasileira do programa de televisão MasterChef Júnior, na TV Bandeirantes, foi alvo, logo na primeira aparição, bombardeada com comentários pedófilos no Twitter. O incidente levou uma mulher, também ela vítima de assédio na infância, a criar uma campanha na mesma rede social para denunciar o caso. E a adesão foi massiva. Num dia, a campanha #PrimeiroAssédio contabilizou mais de 50 mil tweets de mulheres a partilharem experiências de assédio sexual que sofreram quando eram crianças ou adolescentes.
 
 
 
De acordo com a BBC Brasil, Juliana De Faria, fundadora da associação feminista Think Olga foi quem lançou a hashtag no Twitter com o objetivo de estimular mulheres a contarem os casos de assédio que viveram na infância.

"Nós enterrávamos esses casos como se fosse culpa nossa. Agora, graças à Internet, estamos a unir-nos", disse Juliana De Faria à BBC Brasil . "Eu contei pela primeira vez sobre o assédio que sofri aos 11 anos quando eu tinha 27. Muitas mulheres estão a contar os seus casos com a hashtag e dizem que é a primeira vez que estão a falar sobre o assunto. A força disto não tem mais volta atrás”, acrescentou.


"Sempre existiu o debate sobre o assédio, mas a Internet juntou as vítimas. Antes, você não falava sobre isso e o assunto morria. É importante que enxerguemos que somos vítimas e, muitas vezes, não vamos enxergar sozinhas”, completou.


Valentina Schultz no programa MasterChef Júnior Brasil (Foto: Facebook)


De cabeça, Juliana De Faria conta pelo menos três casos durante a infância e a adolescência em que sofreu assédio sexual. Aos 11 anos, quando ouviu comentários sexuais na rua, aos 13, quando um homem a abordou numa estação do metro de São Paulo, no Brasil, e disse que iria "comê-la", aos 14 quando foi perseguida numa festa por não querer beijar um homem mais velho. Juliana De Faria sublinha que está longe de ser a única a ter histórias como estas para contar.

"O que temos vindo a discutir com a #primeiroassédio é que quando falamos de pedofilia, as pessoas entendem-na como uma coisa distante, pesada. Não! As sementes dessa barbárie também estão em ações que parecem pequenas e insignificantes, como um tweet", disse, citando o caso de Valentina.

"Sobre essa Valentina: se tiver consenso, é pedofilia?", dizia um dos tweets sobre a menina de 12 anos.

 

Campanha torna-se internacional


Com a hashtag #PrimeiroAssédio, milhares de mulheres brasileiras contaram casos chocantes que viveram aos sete, seis ou mesmo cinco anos. E os relatos na Internet começaram também a chegar de outros países com a hashtag #firstharassment.

A campanha espalhou-se depois de a BBC usar a hastag em inglês para explicar o movimento no Brasil aos leitores estrangeiros. Inspiradas, mulheres do Reino Unido, Estados Unidos, Dinamarca, Chile, Portugal e Holanda contam agora as próprias histórias.

 
"Quando eu tinha quatro anos, um homem mostrou-me o pénis enquanto brincava no quintal de casa", diz uma rapariga no Reino Unido.

 
"Tinha 11 anos e estava a comer um gelado. Um carro com três ou quatro homens de 30 anos passou e eles fizeram comentários sexuais", refere um outro relato.​
 
"Tinha 13. Um homem esquisito seguiu-me quando ia a caminho de casa. Tive que correr para a casa de um estranho para pedir ajuda", diz uma outra mulher.
 

Erotização e normalização da violência sexual


Para Viviana Santiago, especialista de género da ONG de direitos infantis Plan International Brasil, o episódio com Valentina Schultz expõe o problema da "erotização" da criança, que acontece cada vez mais cedo.

"Erotizamos esse corpo infantil, vemos isso na forma como a sociedade projeta a menina como objeto sexual para ser desejado e consumido", afirmou a responsável à BBC Brasil.


Juliana De Faria sublinhou que o principal problema disso é que o homem se sente "protegido" pela "cultura da violação" que erotiza o corpo das meninas desde cedo e, assim, se sente "à vontade" para cometer o assédio e, por isso, os casos são muito mais comuns com crianças e adolescentes.

"A mensagem mais forte é que existe uma normalização da violência sexual contra a mulher e da pedofilia", afirmou.


"Se normalizamos isso, é inevitável que os homens apareçam sem a menor vergonha ou preocupação para falar sobre os seus desejos. Existe esse desequilíbrio de género tão grande, que eles se sentem protegidos e não têm vergonha”, concluiu.
 

TV Bandeirantes lamenta assédio


A TV Bandeirantes lamentou entretanto as mensagens de cunho sexual dirigidas a Valentina Schultz.

"A Band repudia e lamenta essas desagradáveis manifestações de extremo mau gosto. O foco do programa é o talento das crianças, e nem de longe, há qualquer provocação a esse tipo de estímulo", referiu a estação de televisão, em comunicado citado pelo The Huffington Post Brasil.


Em entrevista ao portal IG, o pai da criança, Alexandre Schulz, declarou que "houve gente que pediu que ela mandasse foto nua". Ainda de acordo com o portal, os pais preferiram, por enquanto, não procurar a Justiça.
 
Durante a exibição do Mastercherf Júnior, são publicados tweets ao vivo dos telespectadores, mas os comentários passam por um filtro antes de ir ao ar. Parte dos internautas passou a repudiar os comentários.

"Estou com vontade de vomitar na cara de vocês com essas piadas ridículas e machistas sobre pedofilia e violação", disse um utilizador da rede social.

Em entrevista ao jornal “Folha de S. Paulo”, a mãe de valentina Schultz, que prefere não ser identificada, disse que a família foi aconselhada pela TV Bandeirantes a não comentar mais o caso. Embora os membros da família da participante não queiram falar mais do caso, eles reforçaram a importância de se fazer um debate mais amplo sobre pedofilia.
 
"Não queremos nos eximir da discussão sobre pedofilia, mas estamos a lutar para que ela [Valentina] não seja o centro desse debate", afirmou a mãe.

Também ao “Folha de S. Paulo”, o Ministério Público do Estado de São Paulo afirmou que ainda não foi apresentada nenhuma denúncia relacionada com o caso, mas que qualquer internauta que se sentiu incomodado com o teor dos comentários pode entrar com um processo, inclusive os pais de Valentina Schultz.