A ex-presidente do Brasil, Dilma Rousseff, acusou os senadores que votaram a favor da sua destituição de “condenarem uma inocente” e de “consumarem um golpe” parlamentar.

Na sua primeira intervenção pública após a destituição do cargo e pouco antes de Michel Temer fazer o juramento como presidente, Rousseff reiterou que é inocente dos crimes de que foi acusada e que o processo de impeachment não passou de uma eleição indireta, um golpe feito por senadores que “escolheram rasgar a Constituição”.

Hoje, o Senado Federal tomou uma decisão que entra para a história das grandes injustiças. Os senadores que votaram pelo impeachment escolheram rasgar a Constituição Federal. Decidiram pela interrupção do mandato de uma Presidenta que não cometeu crime de responsabilidade. Condenaram uma inocente e consumaram um golpe parlamentar."

A presidente destituída - que surgiu ao lado do antigo presidente Lula da Silva e outros apoiantes - garantiu que vai recorrer da decisão “em todas as instâncias possíveis” e promete a “mais firme, incansável e energética oposição” ao Governo de Michel Temer, até aqui presidente interino, a partir de hoje presidente do Brasil.

É uma inequívoca eleição indireta, em que 61 senadores substituem a vontade expressa por 54,5 milhões de votos. É uma fraude, contra a qual ainda vamos recorrer em todas as instâncias possíveis. (...) Eles pensam que nos venceram, mas estão enganados. Sei que todos vamos lutar. Haverá contra eles a mais firme, incansável e enérgica oposição que um governo golpista pode sofrer."

Dilma teceu, também, duras críticas aos que agora tomam o poder em definitivo, afirmando que o seu afastamento permite que alguns políticos fujam ao "braço da justiça".

Com a aprovação do meu afastamento definitivo, políticos que buscam desesperadamente escapar do braço da Justiça tomarão o poder unidos aos derrotados nas últimas quatro eleições. Não ascendem ao governo pelo voto direto, como eu e Lula fizemos em 2002, 2006, 2010 e 2014. Apropriam-se do poder por meio de um golpe de Estado."

Entre várias referências à época da ditadura militar, Rousseff diz que este é o segundo golpe de que foi vítima, lamenta que o senado tenha acabado de derrotar “a primeira mulher eleita democraticamente no Brasil” e garante que este é um "golpe contra a nação".

 

O golpe é contra o povo e contra a Nação. O golpe é misógino. O golpe é homofóbico. O golpe é racista. É a imposição da cultura da intolerância, do preconceito, da violência. Peço às brasileiras e aos brasileiros que me ouçam. Falo aos mais de 54 milhões que votaram em mim em 2014. Falo aos 110 milhões que avalizaram a eleição direta como forma de escolha dos presidentes."

Dilma Rousseff acrescentou que a sua saída não significa um adeus, mas um "até daqui a pouco" e despediu-se com um poema do russo Vladimir Maiakovski.

Não estamos alegres, é certo,

Mas também por que razão haveríamos de ficar tristes?
O mar da história é agitado
As ameaças e as guerras, haveremos de atravessá-las,
Rompê-las ao meio,
Cortando-as como uma quilha corta."

Através dos seus defensores, a Presidente agora deposta já anunciou que vai recorrer da decisão

Vamos impetrar, possivelmente hoje [quarta] ou amanhã [quinta], uma primeira ação, sem prejuízo a uma outra ação que será proposta na sexta ou na segunda”, afirmou o ex-ministro José Eduardo Cardozo, advogado de defesa de Dilma Rousseff, citado pelo G1.