A dourar a pílula, é o mínimo de que é acusada a agência francesa do medicamento. A ideia de que a molécula já causara graves lesões no sistema nervoso central de quatro espécies animais e que ainda assim foi testada em cobaias humanas volta a pairar sobre as investigações.

O site noticioso Mediapart, citado pelo Nouvel Observateur, dá conta que a instituição produziu um relatório camuflando alguns dados sobre o que se terá passado com as experiências levadas a cabo pelos laboratórios Bial e Biotrial, uma parceira que foi entretanto suspensa.

Com esse relatório, a agência ANSM terá mesmo enganado a ministra francesa da Saúde, Marisol Touraine, a inspeção geral dos assuntos sociais e a justiça, que investiga a morte de Guillaume Molinet, de 49 anos, e os danos graves ao nível do sistema nervoso central de quatro outras pessoas que se submeteram às experiências.

Dedicou-se a uma missão de desinformação sistemática sobre o teste clínico fatal de Rennes, que matou um voluntário de 49 anos, Guillaume Molinet, e causou graves danos em quatro outros", refere o site Mediapart, que acusa a agência do medicamento de ter "reescrito" um relatório e de ter enviado essa "versão censurada" à Inspeção francesa dos Assuntos Sociais.

O acidente era totalmente imprevisível e nada permitia antecipar a toxicidade da molécula testada", é o que agora se pode ler no referido relatório da agência do medicamento, que, segundo o Mediapart, terá sido manietado, escondendo a verdade.

Já a 13 de abril, o Le Figaro dera nota de um relatório interno que o jornal considerava "esmagador" para a agência do medicamento. Esta teria autorizado as experiências da molécula em seres humanos, sabendo que testes realizados em quatro espécies animais terem revelado lesões ao nível do sistema nervoso central. Precisamente, o tipo de problemas que afetou cinco dos que se submeteram voluntariamente à experiência. E que matou um deles.

Sem sinais de perigo

Esta terça-feira, a agência francesa reagiu em comunicado. Refutando as acusações.

A ANSM desmente categoricamente ter escondido qualquer informação, documento ou relatório, relativos `*a instrução do dossiê, tant à inspeção geral dos assuntos sociais, como às autoridades judiciárias", refere o comunicado.

Em sua defesa, a ANSM acrescenta ainda que as suas investigações foram escrutinadas por uma arbitragem independente.

Peritos independentes examinaram a totalidade do dossiê-base (informações préclínicas, toxicológicas e farnacológicas) e consideraram que "nenhum dos elementos dos dados avaliados constituía um sinal de forma a contraindicar a passagem para humanos"", acrescenta o comunicado da ANSM.

O caso que causou a morte a uma pessoa e provocou graves danos em quatro outras continua a ser investigado pela justiça francesa. Em junho, foi aberto um processo por "homicídio involuntário" e "danos involuntários".

Também o laboratório português Bial já assegurou continuar a tentar perceber o que se passou 

Por que é que (…) houve quase 100 [pessoas] que testaram sem qualquer problema e naquele último grupo de seis, há um que não tem qualquer problema, há quatro que têm efeitos secundários e há um que veio a falecer", indagou o presidente do laboratório português, António Portela, em julho passado, quando anunciou a suspensão da colaboração com os franceses da Biotrial.

Sem medir as consequências

Apesar dos desmentidos e justificações, o jornal Le Figaro argumenta que os testemunhos das cobaias humanas mostar até que ponto os sinais de perigo da experiência com a molécula foram desvalorizados.

Guillaume Molinet, de 49 anos, morreu. Também em janeiro, um outro voluntário Lylian apresnetava fortes falhas de memória, comprovadas por um seu companheiro na experiência.

Jogava às cartas mas não se lembrava das regras. Quando puxei à conversa o filme que tínhamos visto horas antes, tinha uma branca completa", referiu Régis, outro dos que se submeteu aos testes.

Outro dos submetidos, de seu nome Mickael, contou à polícia que os médicos lhe detetaram "uma poça de sangue no cérebro. Seria um "erro de fabrico", não relacionado com o ensaio clínico", segundo relatou o Le Figaro.