A ministra francesa da Saúde, Marisol Touraine, não encontra “nenhuma razão que justifique a suspensão os ensaios clínicos” com o medicamento que provocou a morte de um voluntário e deixaram outros cinco em estado crítico, em Rennes, França.
 

“Há um grande problema, maciço, inédito em França. Devemos procurar perceber o que se passou, mas nada justifica a interrupção dos ensaios clínicos”, disse Marisol Touraine, numa entrevista à RTL.

 
A ministra confirma que só foi informada dos problemas com os ensaios clínicos com o medicamento da Bial na quinta-feira seguinte à hospitalização do primeiro paciente, que tinha acontecido no domingo anterior e critica a demora do laboratório no contacto com as autoridades: “Face a um evento de tamanha gravidade, esperava-se que o laboratório se tivesse manifestado mais rapidamente junto das autoridades sanitárias”.
 
A ministra anunciou ainda a solidariedade do Governo francês para com as vítimas e pediu ao laboratório que “se empenhe diretamente, ou através das seguradoras, para que o apoio financeiro possa ser dado a estas pessoas”.
 

Estado de saúde dos pacientes estabilizado

 
Um paciente morreu este domingo, na sequência de testes clínicos com uma molécula nova para travar dores e ansiedade. Cinco outros voluntários permanecem hospitalizados, sendo que quatro dos quais terão lesões neurológicas que ainda não é possível precisar.
 
O estado de saúde destes cinco voluntários é, no entanto, considerado “estável”, conforme confirma a ministra e também o centro hospitalar onde estão internados.
 

“O estado de saúde dos outros cinco pacientes hospitalizados permanece estável”, confirma o Hospital.

 
Sem adiantar pormenores, o centro hospitalar, citado pelo jornal Le Monde, fala em “problemas irreversíveis” do ponto de vista neurológico.
 
Os cinco homens, com idades entre os 28 e os 49 anos, foram todos voluntários de um ensaio clínico com um novo medicamento para as dores e para a ansiedade, levado a cabo pelo laboratório Biotrial, um centro de pesquisa de medicamento sedeada em Rennes. O medicamento é da responsabilidade da farmacêutica portuguesa Bial.
 

Mil euros por uma semana de testes

 
De acordo com o jornal Le Figaro, as autoridades francesas têm três inquéritos em curso, para investigar as razões da morte de um voluntário e da hospitalização dos outros cinco. De acordo com a ministra, os resultados de pelo menos um desses inquéritos deve ser conhecido “antes do final do mês”.
 
De acordo com o hospital, os outros 84 voluntários que participaram no estudo foram todos contactados. “Dez deles foram recebidos em consulta e examinados no CHU de Rennes, no sábado, dia 16. As anomalias clínicas e radiológicas encontradas nos pacientes hospitalizados não foram encontradas nestes 10 voluntários”, adianta o centro hospitalar em comunicado citado pelo L’Indépendant.
 
De acordo com o mesmo jornal, os voluntários que participaram neste ensaio terão sido remunerados com pouco mais de mil euros, por uma semana inteira de testes. As autoridades francesas impõem um limite anual de 4.500 para a remuneração da participação neste tipo de ensaios.
 
Estes são valores referentes à lei francesa, já que em Portugal, a lei proíbe “quaisquer incentivos ou benefícios financeiros” a participantes em testes clínicos com novas terapias ou medicamentos. Apenas é permitido o pagamento do “reembolso das despesas” e de eventuais “prejuízos” que os voluntários tenham com a participação no ensaio.