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Berlim e um muro que estava a mais (2ª parte)

Capital alemã comemora os 20 anos da queda da barreira que a separou durante 28

Por: Hugo Beleza  |  9- 11- 2009  9: 0

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Berlim: «Queda do Muro - 20 anos depois»

Leia a primeira parte

O sangue não desfez a barreira. Nem as palavras do presidente norte-americano John Kennedy, que, em 26 de Junho de 1963, foi à cidade e, em solidariedade com as vítimas da divisão, declarou-se «um berlinense». A estrutura era o rosto visível da cortina de ferro e do mundo bipolar, equilibrado em duas montanhas nucleares. Só mais de duas décadas depois do «Ich Bin ein Berliner» de Kennedy, os dois mundos arriscariam espreitar cautelosamente para o outro lado da vedação.

A chegada de Mikhail Gorbachev ao Kremlin, em Março de 1985, introduziu duas palavras novas no dicionário político soviético, que seriam exportadas para os do Ocidente. «Glasnost» (transparência) e «perestroika» (reestruturação) tornaram-se os mantras da ruptura interna e a chave para uma abertura ao resto do mundo. As palavras de Ronald Reagan, em Junho de 1987, junto às Portas de Brandemburgo - «Sr. Gorbachev deite este muro abaixo» -, terão ecoado de forma diferente em Moscovo das de Kennedy duas décadas antes. Já em Berlim Leste seriam vistas como mais uma intromissão. A RDA de Erich Honecker - que vaticinara que o muro duraria ainda mais um século - mostrava-se irredutível.

A nova face soviética permitiu, contudo, que se abrissem brechas no Pacto de Varsóvia. No Verão de 1989, a Hungria retiraria o arame farpado disposto na fronteira com a Áustria e tornar-se-ia subitamente um destino de «férias» para muitos alemães de Leste. O objectivo era passar para o outro lado. Berlim comunista proibiria as viagens para a Hungria, mas mesmo assim milhares conseguiriam passar, depois de se terem refugiado na embaixada da RFA. O episódio repetir-se-ia na Checoslováquia.

De Alexanderplatz para o outro lado

À pressão interna, Honecker parecia mais inclinado a responder com uma «solução chinesa» - Tiananmen era uma memória fresca - para travar as manifestações e aos protestos de rua. De Moscovo, Gorbachev segurava as balas nos carregadores. A 7 de Outubro, o líder soviético iria a Berlim, para as comemorações do 40º aniversário da Alemanha de Leste. Durante uma parada, uma multidão de jovens disciplinados trocou os slogans ensaiados por uma exclamação entusiástica espontânea: «Gorbi, Gorbi». Honecker não resistiria muito mais. A 18 de Outubro seria substituído por Egon Krenz.

A contestação não cessou. A 4 de Novembro, a Alexanderplatz, em Berlim, acolheu quase meio milhão de manifestantes. Pediam democracia e abertura. Cinco dias depois, as ruas da cidade voltariam a encher-se. Mas para celebrar o «efeito imediato» que tinha sido anunciado por Günter Schabowski. Volker Warkentin, que vivia no Ocidente da cidade, conta que habitualmente passava rapidamente para o outro lado. Bastava exibir a acreditação de imprensa e o passaporte da RFA. Nessa noite, diz, colunas de carros entupiram as ruas. Toda a gente queria ir passar à zona Oeste da cidade. Ele preferiu esperar mais um bocado: «Normalmente não me emociono - com nada. Mas a visão da fronteira, normalmente vazia, cheia com hordas de pessoas a celebrar o fim da Guerra Fria, apanhou-me. Parei à beira da estrada e comecei a chorar».

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