Por: Hugo Beleza | 9- 11- 2009 9: 0
O porta-voz do politburo do Partido Socialista da Unidade da Alemanha falava há já cerca de uma hora, durante uma enfadonha
conferência de imprensa, quando o correspondente da agência italiana Ansa, Riccardo Ehrman, o questionou sobre um tema sensível:
a liberdade de viajar para os alemães de Leste. Foi nessa altura, quando muitos repórteres já tinham abandonado a sala, que
Günter Schabowski transformou a noite de 9 de Novembro na mais importante da história germânica recente. «Decidimos hoje...
hum... implementar uma regulação que permite qualquer cidadão da República Democrática da Alemanha... hum... deixar a Alemanha
de Leste por qualquer um dos postos fronteiriços», disse o porta-voz.
O relato desta declaração histórica de Schabowski
é do jornalista da Reuters Volker Warkentin. O relógio, recorda, marcava 18:53. Depois de ter ouvido da boca do responsável
comunista que a medida tinha efeitos «imediatos», correu para o escritório da agência. «ALEMÃES DE LESTE AUTORIZADOS A PARTIR
PARA A ALEMANHA OCIDENTAL COM EFEITO IMEDIATO - DISSE SCHABOWSKI». Foi com este despacho de alerta que Warkentin se tornou
o primeiro a dar a notícia. Daí a dois minutos, a informação começava a ser difundida em larga escala. Pouco depois, Berlim
Leste desfilava para os postos de controlo e para o muro. Saber-se-ia, posteriormente, que Günter Schabowski se precipitara.
As alterações só deveriam ter sido comunicadas no dia seguinte e as regras permitiriam a saída do território, mas apenas após
a concessão de um visto.
Demasiado tarde. A decisão pretendida sufocara entre as hesitações da declaração do porta-voz,
num anúncio feito demasiado cedo. Demasiado cedo do ponto de vista do politburo. Demasiado tarde para quem vivera 28 anos
numa cidade dividida, com um muro a mais. Milhares de berlinenses reivindicaram o direito de passagem nessa noite.
Os
guardas fronteiriços, habitualmente com ordens para disparar, mas sem ordens muito claras nessa altura sobre o que fazer com
a informação que rebentara nas rádios e televisões, pouco antes, acabaram por não conter a corrente. Como numa barragem saturada,
abriram-se as comportas. Sem disparos das torres de vigia, sem cães, sem electricidade nas vedações. Os berlinenses dos dois
lados da fronteira abraçavam-se. Maior parte, perfeitos desconhecidos. Mas como se esperassem pelos braços uns dos outros
toda a vida. A 3 de Outubro, um abraço mais longo reunificaria a Alemanha.
Barreira «anti-fascista»
Um
salto no tempo. Antes da claustrofobia total, na Alemanha de Leste, envolvida pela esfera soviética, Berlim era a cidade símbolo
do pós-guerra. Talhada em quatro sectores de influência: norte-americano, britânico, francês e soviético. Os vencedores tinham,
inicialmente, o objectivo de reunificar a Alemanha. Mas um novo conflito, a Guerra Fria, congelou o projecto. A debandada
iniciou-se. Calcula-se que até três milhões de alemães terão passado para o Ocidente. Berlim tornou-se uma espécie de enclave,
envolvido por quase meio milhão de soldados do exército vermelho. Era uma porta no coração do Leste aberta para o outro lado.
Na noite de 12 para 13 de Agosto de 1961 essa porta fechou-se.
Três dias depois, no decalque do arame farpado, ergueu-se
um extenso muro, a que o líder alemão de Leste de então, Walter Ulbricht, chamaria «a barreira de protecção anti-fascista».
O regime tentou suster a fuga com 3,6 metros de altura de betão ao longo de dezenas de quilómetros. Logo no dia 15, Conrad
Schumann, um jovem soldado, tornou-se no primeiro fugitivo. Só se deixou apanhar pelas câmaras, que fixaram para a história
o momento. Quatro dias depois, o muro faria a primeira vítima. Os números negros de quase três décadas não são consensuais.
A Fundação Muro de Berlim aponta 136 mortos. Mas há quem refira que foram mais de duas centenas os que morreram a tentar chegar
ao Ocidente.
Continuação
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