As autoridades belgas questionaram a polícia espanhola, em 2016, sobre se o imã de Ripoll, Abdelbaki es Satty, teria algumas ligações ao terrorismo islâmico, escreve o jornal espanhol El País. A dúvida surgiu após um clérigo belga ter alertado para o comportamento suspeito de Satty, durante a sua estadia em Vilvoorde. A informação foi avançada pelo presidente da Câmara local, Hans Bonte e, esta quarta-feira, fonte oficial confirmou que os Mossos d’Esquadra foram contatados.

De acordo com este autarca belga, a resposta de Espanha – que chegou a 8 de março de 2016 – foi negativa. A suspeita levantada pelo imã belga é, até agora, o maior indício conhecido em relação a Abdelbaki es Satty e que poderia ter colocado as autoridades espanholas de alerta.

Recorde-se que Abdelbaki es Satty, o ex-imã de Ripoll, que morreu na explosão da casa em Alcanar, é considerado pelas autoridades espanholas o cérebro da célula terrorista que provocou os ataques nas Ramblas e em Cambrils, a 17 de agosto último. Com cerca de 40 anos, era imã em Ripoll desde 2015, mas há cerca de dois meses tinha anunciado que ia deixar a cidade. O seu destino podia ser Marrocos ou Bélgica. As suas visitas à Bélgica eram conhecidas da polícia.

Esta quarta-feira, o ministério do Interior espanhol confirmou que, de facto, um membro da polícia espanhola recebeu "uma pergunta" da Bélgica, mas alega que se tratou de "uma consulta informal", feita entre pessoas que se conheciam  de jornadas e congressos internacionais. A mesma fonte acrescenta que a resposta foi negativa porque, à época, "os Mossos não tinham nenhuma informação prévia sobre o imã".

Não foi uma comunicação oficial, que segue outra via", explicou Jesús García, porta-voz do departamento.

Daniel Canals, chefe da Unidade de Análise Estratégica, dos Mossos d’Esquadra, respondeu por email às questões da polícia de Vilvoorde. Abdelbaki Es Satty "não era conhecido" pelas autoridades espanholas, mas um familiar seu, com o mesmo apelido, já tinha sido investigado por ligações a extremistas numa operação. Referia-se a Mustafa es Satty. Oficialmente, tanto o ministério do Interior, como a Polícia federal Belga, não tiveram conhecimento desta troca de informação.

A cidade de belga de Vilvoorde foi, nos últimos anos, um foco do jihadismo europeus. Situada na periferia de Bruxelas, tem cerca de 40 mil habitantes e, entre 2011 e 2014, partiram daqui, pelo menos, 28 jovens para a Síria.

“Tivemos graves problemas de radicalismo” assumiu Hans Bonte em declarações ao El País. Acrescentando em seguida que foram tomadas medidas e, agora, tudo aparenta estar mais calmo.

Abdelbaki es Satty, chegou a Vilvoorde em janeiro do ano passado e, quase de imediato, o seu comportamento levantou suspeitas entre vários fiéis. Ao ponto de o imã de Diegem, localidade vizinha de Vilvoorde, ter alertado as autoridades. “Chegou de repente e disse que queria ser imã aqui porque em Espanha não tinha futuro”, conta o autarca.

A polícia local e os responsáveis pelos projetos antiterroristas procuraram toda a informação possível e entraram em contacto com os serviços secretos”, explica Hans Bonte. “Houve muitos contatos entre a polícia federal e a de Vilvoorde, com forças de segurança de Barcelona”, garante.

Ainda segundo o El País, que cita fonte da luta antiterroristas “não havia informações” que ligassem Es Satty ao terrorismo islâmico na altura. Em 2006, quando foi desarticulada uma célula terrorista em Vilanova i la Geltrú, perto de Barcelona, o seu nome surgiu relacionado com vários dos detidos. Um deles era seu primo - Mustafa es Satty. “Mas nunca se provou uma ligação direta às atividades criminais do grupo”, terá explicado a mesma fonte.

Alguns especialistas ouvidos pelo diário espanhol consideram que depois de ter estado preso, entre 2010 e 2014, por tráfico de droga, o seu comportamento mudou e mostrou traços de radicalismo. A radicalização nas prisões é um fenómeno conhecido, dizem os peritos.

Além do mais, regressou a Vilanova i la Geltrú, onde anos antes tinha estado em contato com os terroristas da célula desmantelada. Outro fator que os especialistas descrevem como um indício.

Em Ripoll, Abdelbaki es Satty passou a dirigir uma recém-criada comunidade islâmica. Uma fonte também ouvida pelo El País, ligada à luta antiterrorista, defende que nestas situações, as novas mesquitas são um mundo a estudar. Principalmente saber quem a criou, quem a lidera, quem são os fiéis que a frequentam e o que se diz sobre ela.

Sabe-se que foram feitas algumas diligências rotineiras pelas autoridades espanholas que nada chamou a atenção em relação ao novo imã. Agora, alguns fiéis lamentam que o seu recente passado na prisão tenha sido ocultado porque, na verdade, esse facto era suficiente para que não pudesse exercer o lugar de imã. Não seria considerado apto.