A «surpresa cubana de Barack Obama» é a principal notícia da política internacional deste ano. E tem tudo para vir a ser o catalisador da maior mudança da região nas últimas décadas.
 
Por enquanto, o acordo entre Obama e Raul Castro teve um efeito mais simbólico do que efetivo.

A administração norte-americana pretende nomear um embaixador em Havana, mas para isso precisa da aprovação do Congresso de ampla maioria republicana. E uma boa parte dos senadores mais influentes do GOP (entre os quais Marco Rubio e Ted Cruz) já prepara um «guião» para travar, pela via legislativa, o caminho de abertura a Havana traçado por Barack Obama.

Como? Através do bloqueio do financiamento para a instalação de uma embaixada em Cuba (o Presidente tem poder para nomear, mas é o Congresso que aprova o dinheiro). 

Mas a reação popular, nos dois lados (sobretudo em Havana, mas também na opinião pública norte-americana) torna difícil um posição autista da maioria republicana no Congresso.

Obama terá aberto uma estrada sem retorno rumo à reconciliação com Cuba -- e isso terá óbvias consequências para os países da região, não apenas para os cubanos.

Muita da retórica contra os EUA de líderes como Evo Morales (Bolívia), Rafael Correa (Equador, que até deu abrigo diplomático a Julian Assange, líder do Wikileaks, na embaixada equatoriana em Londres) ou Nicolas Maduro (Venezuela, herdeiro político de Hugo Chavez, que chegou a chamar "Diabo" a um presidente americano, George W. Bush, nas Nações Unidas) baseia-se na cruzada «anti-imperialista».

Essa ideia, com o seu quê de romântica e mobilizadora, teve como escudo mais forte o embargo dos EUA a Cuba, que no último meio século.

A partir do momento em que Obama e Castro anunciaram o restabelecimento de relações oficiais entre os dois países, como implicações imediatas na troca de prisioneiros e na aproximação diplomática e comercial, a tese «anti-americana» fica isolada e corre o risco de se tornar obsoleta.

Está por verificar que consequências isso terá em países como Venezuela, Equador ou Bolívia. Mas o precedente está lançado, mesmo que estejamos longe de ter a certeza que o embargo será mesmo levantado. 

Na política, o efeito surpresa pode ser muito poderoso. Barack Obama, que depois da derrota dos democratas nas intercalares parecia diminuído na sua «magistratura» política, voltou a provar que é um mestre neste tipo de jogadas. 

E com o preço do petróleo cada vez mais baixo, o espaço para que Maduro levante a voz (mesmo que à distância...) ao Presidente dos EUA é mínimo ou... nulo.  

Muitos ainda acusam Barack Obama de ter desiludido ao não conseguir fazer a «mudança» que em 2008 prometia, na primeira campanha presidencial. Mas já se torna difícil manter a narrativa de que Obama «não conseguiu fazer nada».

Os dados estão aí: 40 milhões de americanos passaram a ter plano de saúde, com a aprovação do ObamaCare (que embora se mantenha sob fogo republicano, é já uma realidade prática no sistema de apoios sociais dos EUA); promoveu o caminho para uma recuperação económica clara (5,8% de desemprego na América, quase metade do pico da crise); tomou a decisão certa ao dar luz verde à eliminação de Bin Laden; apostou forte na independência energética, colocando os EUA na liderança da exploração do gás de xisto, diminuindo a necessidade de recorrer ao petróleo estrangeiro.

Muito está ainda a falhar, sim: sobretudo na tentativa de fechar Guantánamo, talvez a promessa não cumprida mais «sonora» dos anos Obama. Mas mesmo a luta contra o Estado Islâmico, sendo extremamente complexa e tendencialmente longa, tem resultados práticos nos últimos meses, com a travagem do avanço territorial do perigoso grupo de radicais sunitas, sem que isso tenha implicado o envio de tropas americanas para o terreno. 

Em plena fase de discussão no Congresso sobre o relatório que explicita as práticas de tortura da CIA, nos anos pós-11 de Setembro, é legítimo que critiquemos o recurso dos EUA a atos como o «waterboarding» (já agora, sondagem CBS News mostra que 49% dos americanos admite que, «por vezes», essa prática pode ser justificável, contra apenas 36% garante que isso nunca se justifica).

Diane Feinstein, senadora democrata da Califórnia, tem sido uma das vozes mais críticas do que se fez durante os anos Bush/Cheney.

Obama tem-se mantido distante dessa discussão, percebendo, naturalmente, que um Presidente dos EUA deve ter relação especial e delicada com a CIA (agência fundamental na luta contra o terrorismo e outras ameaças à segurança nacional). E convém lembrar que o programa de drones, amplamente promovido durante os anos Obama, também gerou vítimas inocentes e não estará livre de ser alvo de relatório idêntico, daqui a uns anos.

Mas não deixa de ser notável que uma sociedade como a americana seja capaz de se auto-questionar desta maneira. Que outro país o faria, desta forma tão aberta e crua?

Obama, sempre pragmático, está cada vez mais solto para, nos últimos dois anos, já sem qualquer trunfo no Congresso, assumir a sua liderança a partir da Casa Branca.

Depois da «surpresa cubana», termina o ano com o epíteto, justo e estimulante, de... Barack Havana.

Germano Almeida é jornalista do Maisfutebol, autor dos livros «Histórias da Casa Branca» e «Por Dentro da Reeleição» e do blogue «Casa Branca»