
«Um dingo entrou na tenda, atacou Azaria e levou-a.» 32 anos depois, a justiça australiana repete as palavras de Lindy Chamberlain naquela noite em que a sua filha desapareceu. A mãe da bebé de 10 semanas, que foi acusada e condenada pela morte da filha, vê finalmente o caso encerrado.
A conclusão foi lida pela médica legista responsável pelo quarto, e à partida último, inquérito ao desaparecimento de Azaria. Elizabeth Morris também anunciou que a família vai receber uma certidão de óbito corrigida e oficializou um desejo de condolências: «Senhor e senhora Chamberlain, Aidan e as vossas famílias, por favor aceitem as minhas sinceras condolências pela morte da vossa querida e amada Azaria.»
É o ponto final no caso judicial mais mediático de sempre na Austrália, uma história que apaixonou e dividiu opiniões desde aquele dia 17 de Agosto de 1980, quando a bebé desapareceu da tenda da família, que acampava em Ayers Rock, hoje conhecido pelo nome aborígene, Uluru, o famoso monolito no «Outback» australiano.
Lindy Chamberlain tinha ido ao carro com o seu filho Aidan. Quando voltava para a tenda, pareceu-lhe ver um cão selvagem fugir. Azaria não estava na tenda. Gritou, procuraram a bebé, mas nunca a encontraram.
Foram mais tarde encontradas roupas da bebé, sem vestígios de saliva de dingo. Não foi encontrado o casaco que a bebé vestia por cima da roupa.
Depois, a opinião pública australiana começou a questionar a história. Não havia memória de um dingo atacar pessoas, os cães selvagens eram tidos como relativamente inofensivos. E depois foram surgindo dados circunstanciais contra Lindy.
No tempo em que não havia os testes de DNA disponíveis atualmente, foi encontrado no carro da família aquilo que parecia sangue, bem como uma alegada marca de mão ensanguentada na roupa da bebé. Mais tarde percebeu-se que o «sangue» era leite entornado misturado com uma substância química. A «mão» era uma marca composta basicamente de terra vermelha do deserto.
Os desenvolvimentos do caso eram acompanhados diariamente pelos australianos. Toda a gente tinha opinião, e a maior parte dela era desfavorável a Lindy. Hoje, quem analisa o caso acredita que a religião dos Chamberlain não ajudou. Eram da Igreja Adventista do Sétimo Dia, um culto relativamente desconhecido na Austrália. Além disso, lidaram sempre com o caso de um modo que parecia à opinião pública «demasiado» calmo.
A tese da acusação era que Lindy tinha morto a filha, fazendo-o de modo a parecer que tinha sido um ataque de dingo. E essa tese vingou. Em Novembro de 1982 Lindy foi julgada e condenada a prisão perpétua e o marido considerado cúmplice, com pena suspensa.
Lindy passou três anos na prisão até o caso sofrer nova reviravolta. Ao fim desse tempo apareceu o tal casaco de Azaria, junto a um covil de dingo. E Lindy foi libertada.
O casal foi indemnizado e a história entrou na cultura popular da Austrália, e não só. Deu mesmo um filme: «A cry in the dark», de 1988, com Maryl Streep.
Michael e Lindy Chamberlain, que entretanto se divorciaram e constituiram novas famílias, nunca desistiram de lutar pelo reconhecimento da sua tese, a de que tinha sido um dingo a levar Azaria. Houve um terceiro inquérito ao caso, mas foi inconclusivo. E agora este quarto inquérito, aberto em Fevereiro deste ano, que acabou por concluir finalmente aquilo que Lindy Chamberlain disse, desde aquela noite.