A Comissão Real para Respostas Institucionais ao Abuso Sexual Infantil, na Austrália, lançou, esta quinta-feira, o livro que reúne mais de 1300 relatos de vítimas.

O grupo, criado em 2013 com o intuito de investigar casos de pedofilia, realizou mais de 8000 sessões privadas com as vítimas e recolheu testemunhos reais, numa investigação que durou cinco anos.

Depois de revelarem as experiências, os sobreviventes de abusos sexuais foram convidados a escrever sobre isso. Para muitos deles, esta foi a primeira vez que falaram, ainda que de forma anónima.

Ao livro deram o título "Mensagem para a Austrália".

"Por favor, sejam bondosos para as crianças. Não digam mentiras. Digam sempre a verdade se as crianças estiverem magoadas como eu"

Ao longo dos últimos anos, a comissão analisou situações de abuso sexual e violência contra crianças em várias instituições da Austrália, desde escolas e clubes desportivos até grupos religiosos.

O livro contém notas escritas, muitas delas à mão, com a descrição do trauma e do sofrimento experenciados pelas vítimas. No entanto, os temas com uma presença mais forte em todas elas são o alívio e a gratidão pelo processo, que está a atribuir a todos os abusados uma voz.

Muitas das mensagens deixadas são agradecimentos aos membros da comissão por terem ouvido as histórias, com empatia e sem julgamento. Outras tantas ajudaram a encerrar este período de vida.

"Em 1978 um menino começou a chorar... em 2014, ele continua"

 

O presidente da comissão, Peter McClellan, agradeceu às vítimas por terem contado a sua experiência.

“Os sobreviventes são pessoas notáveis, com uma preocupação em comum de garantir que mais nenhuma criança é abusada. Eles merecem o agradecimento de todo o país”, disse McClellan, citado pela BBC.

A comissão recomenda à Igreja Católica que levante a exigência de celibato ao clero, de acordo com o relatório final.

O mesmo documento, com 189 recomendações e 17 volumes, indicou que deve também ser esclarecido até onde vai o segredo da confissão quando estão em causa provas de crimes contra menores.

A comissão real australiana sobre respostas institucionais ao abuso sexual de crianças está a investigar desde 2012 como é que a Igreja Católica e outras instituições no país responderam a estes crimes ao longo de mais de 90 anos.

Na investigação da comissão, a mais alta forma de inquérito no país, foram ouvidos os testemunhos de mais de oito mil vítimas de abuso sexual em instituições religiosas. Dos testemunhos recolhidos, 62% eram católicos.

"As crianças têm o direito de se sentirem seguras. Nós todos temos a obrigação de falar sobre este problemas relacionados com a segurança das crianças. Temos a obrigação moral de falar quando outros lhes fazem mal"