Um sobrevivente dos atentados de 13 novembro em Paris escreveu uma carta aberta onde critica as declarações do vocalista dos Eagles of Death Metal – a banda que atuava no Bataclan na noite dos ataques -, por este ter afirmado, pela segunda vez, que os seguranças da sala de espetáculos sabiam o que ia acontecer.

No texto publicado na sua conta de Facebook, Ismael El Iraki lamenta que Jesse Hughes tenha adotado um discurso de incentivo ao ódio, como a “Fox News, Donald Trump e outros”.

Iraki refere-se a uma entrevista dada por Hughes à revista Taki, na qual o cantor afirma ter visto Abdeslam antes dos ataques, e a porta dos bastidores aberta.

Eu sei que eles entraram mais cedo. Lembro-me deles a olhar para o meu amigo. (…) Apercebi-me depois que era o Abdeslam. (…) Não há como negar que os terroristas já estavam lá dentro, e tiveram de entrar de alguma forma. Durante o tiroteio eu saí e vi a porta dos bastidores escancarada. Como é que isso aconteceu?”

Hughes afirmou, também, que conseguiu ver a “inveja árabe” quando alguns membros do staff olhavam para ele e outros nos bastidores, garante que viu seguranças a ajudar árabes a salvarem-se, e que viu outros a celebrar nas ruas.

Vi muçulmanos a celebrar nas ruas durante o ataque, vi com os meus próprios olhos. Em tempo real! Como é que eles sabiam o que se passava? Deve ter havido coordenação.”

Iraki escreveu que não conseguiu ficar indiferente à entrevista e deu o exemplo do segurança de 35 anos, “Didi”, árabe e muçulmano, de origem africana, que salvou dezenas de pessoas no Bataclan.

“Adoro a tua música, os teus concertos ainda mais (super divertidos, espetáculos loucos) e ‘meu’, nunca pensei que te tornasses um desses incentivadores do ódio. (…) Dizes que os seguranças sabiam e que estavam a avisar todos os árabes que viam… por acaso sou árabe, e tenho aspeto disso. Uma farta barba preta encaracolada com um tom de pele a condizer. (…) Mas aparentemente, a grande conspiração árabe não chegou a mim. Esqueceram-se de mim (…) e de todos os árabes que morreram naquela noite.”

O que me magoa mais é que nem te apercebes que muitos de nós que sobreviveram a este evento horrível devemos as nossas vidas a um muçulmano. Chama-se Didi. (…) Sabes o que fez este árabe, este muçulmano? Abriu a porta esquerda, deixou sair um conjunto enorme de pessoas, e depois, já seguro cá fora, voltou a entrar para salvar mais pessoas. Abriu a porta de cima para deixar sair mais pessoas por lá. Este homem não é nada como tu. Ou eu. Foi um verdadeiro herói. (…) Um herói que insultaste com os teus comentários."

Como escreve o The Independent, as alegações do vocalista dos EODM já levaram dois festivais franceses a cancelar atuações da banda e o Bataclan a defender os seguranças que salvaram centenas de vidas.

Iraki recusa-se a contar a sua versão da história daquela noite, mas diz acreditar que as pessoas que salvou não se importaram que ele seja árabe, porque “todos sangramos vermelho”.

Acredito que as pessoas que ajudei naquela noite não se importaram que eu seja árabe, nem eu me importei com as origens delas, ou em que amigo imaginário acreditam. Todos sangramos vermelho, irmão.”

O realizador e guionista termina o texto com um apelo para que Hughes retrate o que disse, e que passe a incentivar o “amor” e não o “ódio”.

Tenta ser mais como a personagem que és em palco e que amamos. Tenta espalhar o amor. (...) Espero que te apercebas que o que dizes está errado e todo o mal que estás a fazer. ‘Ainda há tempo para mudares o caminho onde estás’, irmão. Palavras dos [Led] Zeppelin.”