A capital da África do Sul, Joanesburgo, viveu mais uma noite de violência com ataques a veículos e edifícios. A luz da manhã mostrou os danos causados pelo fogo provocado pelas ofensivas xenófobas a moçambicanos nas ruas da capital e que tiveram origem no porto de Durban. Os últimos dados apontam para doze detidos, pelo menos seis mortes, em todo o país, e centenas que abandonaram as casas e estão agora refugiados.

Doze pessoas foram detidas após os ataques desta noite no centro da cidade sul-africana de Joanesburgo contra lojas de estrangeiros. O porta-voz da polícia Lungelo Dlamini disse que os «12 suspeitos foram detidos por tentaram entrar em lojas de estrangeiros», não referindo a existência de feridos.

Segundo os media locais, os atacantes gritaram aos estrangeiros para deixarem a África do Sul, incendiaram viaturas e confrontaram a polícia.Na quinta-feira, o Presidente sul-africano, Jacob Zuma, lançou um apelo à calma, tendo afirmado que «nenhum nível de frustração ou de raiva pode justificar ataques contra os cidadãos estrangeiros ou a pilhagem das suas lojas».

Em janeiro, uma explosão de violência xenófoba causou seis mortos no Soweto, perto de Joanesburgo. Os ataques eram semelhantes aos atuais, os desordeiros atacavam lojas que pilhavam e perseguiam estrangeiros.

Cerca de 600 é o número apurado de moçambicanos que estavam esta quinta-feira refugiados em centros de acolhimento na região de Durban e o número tende a subir com a escalada de violência xenófoba na África do Sul, disse fonte da diplomacia de Maputo.

«A situação tendeu a agravar-se nos arredores de Durban, porque novos focos de violência eclodiram e também o número de moçambicanos [em centros de acolhimento] subiu», informou hoje à Lusa Fernando Manhiça, diretor para os Assuntos Jurídicos e Consulares do Ministério dos Negócios Estrangeiros e Cooperação de Moçambique e que estima em cerca de 600 o total de cidadãos do seu país em centros de acolhimento temporário na região de Durban.

Segundo Fernando Manhiça, «num terceiro campo que foi aberto, chegaram acima de 200 moçambicanos, sendo que muitos deles, senão mesmo a maioria, manifestaram desejo de regressar ao país».

Na quinta-feira, o Governo preparou o repatriamento do primeiro grupo de mais de cem moçambicanos, em dois autocarros, com destino ao centro de trânsito criado pelo Governo de Maputo em Boane, no sul do país.

«É claro que o número dos que manifestam o desejo de regressar aumentou com estes 200 e tal, que chegaram há quatro dias», depois de se terem refugiado numa esquadra, observou o diretor para os Assuntos Jurídicos e Consulares da diplomacia moçambicana, acreditando que a escalada de violência pode também aumentar o total de pessoas nos centros de acolhimento na região de Durban.


Fernando Manhiça afastou a existência de vítimas mortais moçambicanas nesta nova crise xenófoba dirigida a estrangeiros africanos, referindo que dos dois casos noticiados pela imprensa de Maputo um não chegou a morrer e outro faleceu por motivos não relacionados com os episódios de violência.

De acordo com este diretor do Ministério dos Negócios Estrangeiros, a maioria dos moçambicanos residentes na região de Durban trabalha em campos agrícolas, empresas privadas e casas domésticas, e muitos deles estão em situação irregular.



O número daqueles que pretendem voltar às suas terras de origem em Moçambique vai oscilando com a evolução da situação em Durban, até porque «muitos têm a sua vida constituída na África do Sul, há vários anos, e a decisão de regressar não é fácil».

Em alguns casos, chegou ao conhecimento da diplomacia moçambicana a existência de pessoas que abandonam os centros de acolhimento para ir trabalhar, «porque não têm meios de subsistência, sob o risco de serem agredidos, e depois regressam».

Fernando Manhiça disse ainda que uma mensagem que está a circular nas redes sociais, desaconselhando deslocações de cidadãos moçambicanos à África do Sul, não teve origem na diplomacia de Maputo, embora admita que o risco é elevado.

«O Alto Comissariado [de Moçambique em Pretória] está profundamente preocupado com a possibilidade de as pessoas viajarem para a África do Sul», afirmou o diretor do Ministério dos Negócios Estrangeiros, recomendando «todo o tipo de cautelas, porque há já ameaças e as viaturas podem ser vandalizadas e as pessoas agredidas», não apenas em Durban e na província de Kwazulu Natal, mas noutras mais próximas de Maputo.


Seguindo pronunciamentos anteriores do Governo moçambicano, Manhiça desresponsabilizou o Governo sul-africano nesta crise de violência xenófoba, atribuindo-a a «um grupo de pessoas, de agitadores, desesperados por alguma razão económica em que se encontram e que provocam estas situações».

O Governo moçambicano condenou na terça-feira os ataques xenófobos na África do Sul e anunciou a criação de uma equipa multidisciplinar para apoiar o regresso dos seus cidadãos do país vizinho.

Esta nova vaga de violência teve início poucos dias depois de o rei zulu, Goodwill Zwelithini, a mais alta autoridade tradicional de Kwazulu Natal ter desafiado os estrangeiros «a fazer as suas malas e ir embora» do país.

Em 2008, morreram 72 estrangeiros, vítimas de ataques xenófobos nos bairros suburbanos da África do Sul.

O Presidente moçambicano, Filipe Nyusi, já veio manifestar «angustia» e «sofrimento» pelos moçambicanos vítimas de xenofobia na África do Sul, assegurando que as autoridades moçambicanas estão preparadas para minorar a situação das vítimas.

«Assistimos com grande preocupação e angústia o sofrimento dos nossos compatriotas. Solidarizámo-nos com as vítimas e suas famílias. Estamos determinados a envidar esforços para mitigar o seu sofrimento, prestando toda a assistência necessária», afirmou Nyusi, que falava durante a tomada de posse de três novos procuradores-gerais adjunto da República.