Caraíbas, o mar, um jovem casal britânico, um navegador de circunstância, com dois filhos menores, e um crime que ocorreu e levou 37 anos a ser deslindado. O caso ocorreu em 1978, em Belize, onde Chris e Peta estavam de férias e conheceram o norte-americano Silas Boston. Em má hora, sabe-se hoje.

À época, o que chamamos hoje de internet dava apenas os primeiros passos em circuitos restritos de universidades norte-americanas. Chris tinha 25 anos e era médico. A mulher, Peta, era uma advogada de 24. Os namorados tinham partido da Grã-Bretanha e viviam uma exótica aventura por paragens das Caraíbas. Daí, comunicavam com os familiares através de cartas e postais, que nem sempre chegavam a Manchester com a regularidade esperada.

Em julho de 1978, os corpos do jovem casal foram descobertos já cadáveres a boiar nas águas da costa da Guatemala. Uma investigação policial foi aberta, dos dois lados do Atlântico.

Às famílias, no caso, à de Peta Frampton, acabou por chegar uma carta de Belize, dando conta que ela e o namorado tinham desistido da ideia de viajar de camioneta para o México, resolvendo aproveitar o convite de um norte-americano e dos seus dois filhos, para navegarem até às Honduras.

Pouca coisa pode acontecer num barco", escreveu Peta na carta enviada aos pais. Enganou-se. O seu cadáver e o do namorado seriam encontrados ao largo da Guatemala. Não chegaram ao destino prometido.

Mapa Mar das Caraíbas

Suspeito sem condenação

Então, Silas Boston, que tinha um barco e vivia com os seus dois filhos, foi considerado suspeito.

O pai do médico Chris, assassinado, confirmou junto da marina de Belize que o filho e a namorada tinham embarcado com o norte-americano. Mas, quando foi inquirido pela polícia, incluindo a britânica, foi evasivo. Mesmo recaindo sobre si, suspeitas relacionadas com a morte da mãe dos seus filhos.

Penny Farmer tinha então 17 anos, Em 1980, dois anos depois, o caso seria arquivado.

A polícia norte-americana não ajudou muito. A polícia de Manchester entregou o caso ao meu pai. E algo aconteceu na década de 1980, de que não conhecemos a extensão total, que fez o caso cair por completo", refere Penny Farmer, citada pela cadeia de comunicação BBC, a quem acrescenta ser "difícil imaginar imaginar o quão difícil foi naquela época, viver sem computadores ou telemóveis".

Assassino no Facebook

A família sofreu e Penny Farmer não esqueceu o irmão assassinado. Casou-se, tornou-se mãe de três filhos e trabalha como jornalista. Mas, só em outubro de 2015, se lembrou de procurar pelo suspeito da morte do irmão na maior rede social da internet: o Facebook! E bingo!

Só Deus sabe porque não procurei antes. Suponho que terei pensado que ele estava perdido para nós. Parecia tão remoto e escondido. Mas, graças a Deus, que o fiz", afirmou Penny, citada pela BBC.

Descobriu o suspeito Silas Boston no Facebook. E a partir daí, contatou os seus dois filhos, Russel e VInce, que tinham estado com o irmão e a namorada na última viagem de barco nas Caraíbas.

A par destas diligências, a jornalista abordou a polícia de Manchester, que entrou em contato com a norte-americana de Sacramento, cidade capital da Califórnia, estado onde vivia Silas Boston.

A polícia norte-americana tinha reaberto o caso relacionado com a morte da terceira mulher do navegador. E acabaram por ser os seus dois filhos, Russel e VInce, a revelar que o pai tinha assassinado brutalmente os namorados britânicos, a bordo do seu barco.

Segundo os dois filhos, havia anos que tentavam denunciar o pai como assassino. Da própria mãe de ambos, do casal de britânicos e de mais 30 pessoas. Nunca lhes terá sido dado crédito, nem sequer a polícia, até ao momento em que a jornalista britânica revolveu o caso.

Morto sem castigo

Penny viu, entretanto, morrer-lhe o pai. Tal como viu, a 1 de dezembro de 2016, 14 meses após o ter localizado no Facebook, Silas Boston ser formalmente acusado do assassínio dos namorados Chris Farmer e Peta Frampton, em 1978.

É incrível tudo que sei sobre o que aconteceu naquele dia. Boston era um violador. O meu irmão estava muito mal, amarrado, no convés superior. Peta estava na cabina. Eu realmente não preciso dizer mais nada. Espero que as pessoas possam juntar os pontos", relatou a jornalista.

O que realmente me toca o coração é que, apesar de Chris ter um crânio fraturado e outros ossos partidos e de haver sangue por todo o convés, ele ainda tentava confortar Peta, dizendo-lhe que tudo ia ficar bem. Mesmo quando eles estavam amarrados como perus, para serem atirados ao mar", acrescentou.

Com os contributos dos filhos do mais que provável assassino, Silas Boston enfrentou a acusação. Mas, por pouco tempo. Hospitalizado, com falência de órgãos, usou a prerrogativa legal de prescindir dos tratamentos: morreu a 24 de abril do ano passado. Sem julgamento e sem castigo.

Seguiu o caminho dos cobardes. Teria gostado de o ver em tribunal, contando como tinha devastado duas famílias", assumiu a jornalista, segundo a qual, a "mãe, com 93 anos, tem agora as respostas as perguntas que a assombravam há 38 anos".

Também Penny Farmer fechou as suas investigações por conta própria. Escreveu o livro "Dead in the Water", sobre os assassinatos do irmão Chris e da namorada deste, Peta Frampton, bem como da sua luta para tentar fazer justiça e condenar Silas Boston.

Considera que o livro, mais não seja, será um memorial para o irmão mais velho.