Os portugueses Ariana e Filipe chegaram a Timor-Leste em 2009 para trabalhar para o governo timorense e uma organização de apoio ao desenvolvimento, mas é pela luta contra a pobreza que foram reconhecidos, esta quarta-feira, publicamente pelo país.

Fundadores da organização não-governamental Empresa Di'ak, em 2010, Ariana Simões de Almeida e Filipe Alfaiate estão entre os vencedores do prémio Direito Humanos Sérgio Vieira de Mello, que hoje receberam das mãos do Presidente timorense, Taur Matan Ruak.

«É um enorme orgulho receber este prémio [no valor de 10 mil dólares] e ver reconhecido o trabalho que toda a equipa da Empresa Di'ak tem feito pelo desenvolvimento de Timor-Leste», afirmou Filipe Alfaiate, cofundador da organização juntamente com a sua mulher, Ariana Simões de Almeida.


O prémio já tem um destino e, segundo Ariana Simões de Almeida, vai ser utilizado para criar e acompanhar mais micro negócios e capacitar muitas mulheres vulneráveis da ilha de Ataúro e no distrito de Covalima, duas das áreas mais remotas e empobrecidas de Timor-Leste.

Para o jovem casal, a aventura timorense começou em 2009 em Londres quando fizeram as malas rumo à meia-ilha. Filipe Alfaiate veio trabalhar com o primeiro-ministro timorense, Xanana Gusmão, e Ariana Simões de Almeida numa organização de apoio ao desenvolvimento.

«O Filipe tem família timorense e havia uma vontade muito grande de participar de alguma forma no desenvolvimento de Timor», afirmou Ariana Simões de Almeida.


Dai até surgir a Empresa Di'ak passou pouco mais de um ano.

«A ideia surge depois de estarmos em Timor há algum tempo. Durante o processo percebemos que havia um problema de combate à pobreza. Havia muita análise, costumamos dizer que este é o país mais psicanalisado do mundo, com muitos relatórios, mas depois em termos de implementação e resultados encontramos grandes falhas», explicou Filipe Alfaiate.


Segundo Ariana Simões de Almeida, no início quiseram fazer grandes projetos, mas depois de muito trabalho e erros cometidos, perceberam que só conseguiriam fazer a diferença se fossem diretamente às comunidades, encontrando-se projetos em oito dos 13 distritos timorenses.

«Há aqui uma lógica mais de parceria, do que de caridade ou assistencialismo», disse Filipe Alfaiate, salientando que ajudam, mas se as pessoas não querem trabalhar, ou organizar-se, passam à próxima pessoa.

A Empresa Di'ak apoia atividades sempre com a ideia de lutar contra a pobreza e um negócio de cada vez para trazer às pessoas oportunidade de construírem vidas "sustentáveis e mais dignas", afirmou Ariana Simões de Almeida.

A organização apoia comunidades rurais a produzir e identificar oportunidades de mercados para venderem os seus produtos, nomeadamente na área das pescas, pecuária, artesanato, e, por outro lado, faz uma intervenção junto dos empresários, como donos de supermercados, a quem explicam que perdem dinheiro por não comprar produtos locais.

Outra área que acabaram por desenvolver também foi a de capacitação de mulheres vulneráveis, especialmente vítimas de violência.

«O nosso trabalho nessa área tem sido de trabalhar com mulheres e organizações que apoiam essas mulheres não só a dar formação, mas também a capacitá-las desde o mais básico, ao acompanhamento da sua reintegração» de acordo com a sua realidade, disse Ariana Simões de Almeida.


Os projetos da Empresa Di'ak, que já tem 11 funcionários, têm sido financiados por várias países, nomeadamente Estados Unidos, Austrália, Alemanha, e também por agências da ONU e de desenvolvimento.