“Esperei 38 anos por este momento” e “nunca pensei que assistiria a este momento”, disse Rosa de Roisinblit, de 97 anos, no tribunal, após ouvir a sentença a que foram condenados os homens responsáveis pelo desaparecimento da filha há 38 anos. Com ela, o neto nascido em cativeiro e que nunca conheceu os pais.

Um tribunal argentino condenou, na quinta-feira, os antigos comandantes da Força Aérea Argentina, Omar Graffigna, de 90 anos, e Luis Trillo, de 75, a 25 anos de cadeia. Um antigo agente dos Serviços Secretos, Francisco Gomez, atualmente com 70 anos, também vai passar os próximos 12 na prisão, de acordo com a AFP.

Em causa o desaparecimento de um casal de contestatários da ditadura militar, Patricia Roisinblit e José Manuel Pérez Rojo, em 1978. Patricia, de 25 anos, estava grávida de oito meses. Foi morta algumas semanas depois, após dar à luz um rapaz.

 

Guillermo com a avó Rosa em 2008 (Foto Reuters)

O filho, hoje com 38 anos, acompanhou a avó na sala de audiências e viu aquele que chamou de pai ser condenado. Guillermo Pérez Roisinblit foi entregue a Francisco Gomez e à mulher e criado como seu filho. Só aos 21 anos soube a verdade e, passados quase 20 depois disso, ainda não perdoou ao homem que se fez passar por seu pai.

“A avaliar pelos danos que ele provocou a mim e à minha família, 12 anos é seguramente pouco”, declarou ao correspondente do Guardian.

 

“A justiça ajuda a sarar a ferida, mas não traz os meus pais de volta (…) e não compensa todas as memórias que não tive deles porque foram assassinados quando eu nasci”.

Como Guillermo estima-se que 500 crianças tenham nascido nas mesmas circunstâncias. A organização de que Rosa de Roisinblit faz parte, As Avós da Plaza de Mayo, já conseguiu reunir 120 destes filhos com as famílias. Como Patricia Roisinblit e José Manuel Pérez Rojo, terão morrido cerca de 30.000 opositores da ditadura que se viveu na Argentina entre 1976 e 1983.