A pintura "A Anunciação", parte de um díptico pintado pelo artista português Álvaro Pires de Évora, entre 1430 e 1434, foi vendida esta noite em Nova Iorque a um comprador inicialmente anónimo, mas que entretanto se confirmou que foi o Estado português.

Já se sabia que o Estado estava na corrida e, entretanto, o diretor do Museu Nacional de Arte Antiga (MNAA) confirmou à Lusa que foi o comprador. A obra foi arrebatada em leilão por 280 mil euros, mas a conta final ficou nos 349 mil euros, ao serem adicionados os 25% da comissão da leiloeira. Este valor estabelece um novo recorde para pinturas do autor vendidas em leilão.

“Foi comprado pelo Estado português com o auxílio dos amigos do Museu Nacional de Arte Antiga e com o auxílio dos portugueses todos, porque a verba teve de ser complementada com algum dinheiro remanescente do dinheiro [da campanha de angariação de fundos para aquisição da 'Adoração dos Magos'] do Domingos Sequeira”, explicou à Lusa o diretor do MNAA, António Filipe Pimentel.

O futuro do quadro passa agora pelo MNAA, em Lisboa, onde tem um lugar reservado na sala dos Painéis de São Vicente, ficando apenas sujeito ao “processo natural de importação” e todas as questões técnicas a ele inerentes.

Trata-se, assim, de “uma ótima vitoria de nós todos”, sublinhou o diretor do MNAA, que frisou ser o primeiro Álvaro Pires do museu e um “excelente Álvaro Pires”.

A licitação do quadro começou nos 100 mil euros, com uma oferta garantida, a compra foi feita por telefone, depois de uma disputa entre três licitadores, todos ao telefone.

O quadro, que pertencia a um colecionador privado, tem 30,5 por 22 centímetros.

Em janeiro, o Museu Nacional de Arte Antiga, em Lisboa, apresentou formalmente uma proposta à Direção-Geral do Património Cultural (DGPC) no sentido de a obra ser adquirida pelo Estado português, sustentando a sua relevância para o património nacional.

No documento enviado à DGPC, os responsáveis do museu apresentavam o leilão como uma "oportunidade rara".

Quadro estava nas mãos de família colecionador suíço

De acordo com os dados presentes no catálogo da Sotheby's, a posse do quadro remonta à família do colecionador suíço Heinz Kisters (1912-1977), que o vendeu ao antigo chanceler alemão Konrad Adenauer (1876-1967), e o adquiriu de novo, mais tarde, aos herdeiros do primeiro chefe de Governo da Alemanha Ocidental, chegando o quadro por herança ao atual dono.

O cadastro dá conta apenas de duas exposições públicas do quadro: a primeira em Estugarda, na Alemanha, em 1959, integrado numa mostra dedicada a antigos mestres, e, mais tarde, na exposição "Álvaro Pires de Évora: um pintor português na Itália do Quattrocento", do Arquivo Nacional da Torre do Tombo, para a Lisboa 1994 -- Capital Europeia da Cultura, emprestado pelo seu proprietário.

Ainda segundo o catálogo da Sotheby's, o quadro fez parte dos lotes do leilão da chamada "Coleção Konrad Adenauer", realizado pela Christie's, em Londres, em junho de 1970, tendo ficado sem comprador.

Em Portugal, existe apenas um quadro de Álvaro Pires de Évora.