A opinião parece ser consensual: nunca a escolha de um secretário-geral da Organização das Nações Unidas (ONU) decorreu de forma tão aberta e transparente. A nomeação de António Guterres para liderar a ONU deverá ser oficializada esta quinta-feira - basta ser aprovada por uma maioria simples - e o antigo primeiro-ministro português deverá dirigir-se aos 193 estados-membros como secretário-geral pela primeira vez. E assim, com um discurso que terá entre cinco a sete minutos, Guterres irá abraçar o “trabalho mais impossível do mundo” - ainda que, na prática, só entre em funções no próximo ano. Os desafios que terá pela frente são enormes, numa altura em que paira sobre a organização uma densa nuvem de críticas.

Quando o primeiro secretário-geral da ONU, o norueguês Trygve Lie, descreveu o seu cargo como o “trabalho mais impossível do mundo” ao seu sucessor, o sueco Dag Hammars-kjöld, a comunidade internacional erguia-se sob dois grandes eixos: de um lado os interesses dos Estados Unidos e, do outro, os da União Soviética. 

Mas mais de meio século depois, a expressão continuará bem atual, tendo em conta as múltiplas crises que se abatem sobre um mundo cheio de vicissitudes e complexidades.

À ONU não se exige menos do que um papel fundamental na promoção da paz, da estabilidade e da segurança a nível global. Todavia, a organização tem sido muito criticada pelas ações aquém do desejado. Há quem fale em inércia e há quem a acuse mesmo de fugir às decisões mais difíceis.

Ban Ki-moon sempre assumiu uma postura discreta. O líder sul-coreano diz que se trata de uma questão de humildade, ao invés de falta de firmeza, mas não se livra de ser considerado por muitos como o pior secretário-geral de sempre, que deixou muito por fazer. Em vários planos: a escalada de violência no Médio Oriente, o infindável conflito na Síria, a ausência de reformas da própria ONU.

Ora, é o leme desta ONU, envolta nos vários problemas do mundo e abalada por uma descrença no seu papel unificador e pacificador, que Guterres irá assumir. Os desafios são enormes.

Os desafios que Guterres terá pela frente

A guerra na Síria, que dura há cinco anos, já fez mais de 300.000 mortos e milhões de deslocados. O conflito arrasou cidades inteiras, transformando muitas regiões em territórios-fantasma. Encontrar uma solução de paz para a Síria é uma das urgências da atualidade. E na correlação de forças que opõe o regime sírio aos guerrilheiros rebeldes, há dois “players” cujas jogadas é preciso mediar: Rússia e Estados Unidos.

Mas os conflitos que assombram a paz vão muito para além da guerra na Síria. Há uma guerra no Iémen e outras tensões para gerir, como é o caso das relações Rússia/Ucrânia e Israel/Palestina.

Há ainda uma crise de refugiados na Europa que é a pior desde a Segunda Guerra Mundial. Numa Europa cada vez mais divida, ainda a recompor-se de um choque chamado "Brexit", fazer face aos fluxos de migrantes exige uma resposta concertada dos estados e das organizações internacionais, sendo necessário estar preparado para lidar com a oposição de governos mais conservadores. Mas aqui, Guterres terá um trunfo de gigante a seu favor: a experiência de dez anos à frente do Alto Comissariado da ONU para os Refugiados.

E depois, a ameaça terrorista, que ganhou uma nova força com os jihadistas do Estado Islâmico. Os atentados de Paris e de Bruxelas materializaram o espectro do horror e a insegurança impulsionou sentimentos xenófobos que fizeram crescer as forças da extrema-direita.

As alterações climáticas serão outra das matérias em destaque. O Acordo do Clima de Paris, que prevê a redução das emissões de dióxido de carbono e gases de efeito estufa, foi considerado histórico, mas agora é preciso assegurar que o entendimento é mesmo cumprido.

A questão da energia nuclear é outro dos temas que, certamente, fará parte da agenda. Por um lado, será necessário monitorizar o caso do Irão e, por outro, lidar com as provocações e os delírios da Coreia do Norte. Este ano, Pyongyang realizou o teste nuclear mais forte de sempre. Uma demonstração de força que foi considerada uma ameaça à segurança a nível global.

As preocupações de Guterres estendem-se ainda ao plano interno da própria ONU. Há muito que se pedem reformas ao nível da estrutura e do funcionamento da organização. Depois de a seleção de Guterres ter sido considerada de uma transparência sem precedentes, levar essa transparência para todas as dinâmicas da ONU parece ser mais possível do que nunca

Ao mesmo tempo, é essencial reabilitar a imagem de uma organização cuja reputação tem sido manchada por vários escândalos, como os abusos sexuais cometidos por capacetes azuis na República Centro-Africana e o surto de cólera atribuído às forças de paz nepalesas mobilizadas para o Haiti.

António Guterres é o oitavo homem a liderar a ONU, o que desiludiu dezenas de países e personalidades, incluindo Ban Ki-moon, que reivindicavam ser altura de uma mulher ficar à frente da organização. 

A seu favor tem uma vasta experiência política e credenciais que todos reconhecem. É o primeiro antigo chefe de um governo a chegar secretário-geral e, durante dez anos, foi Alto Comissário da ONU para os Refugiados. 

Um artigo de Rinna Kullaa, investigadora na universidade francesa SciencesPo, publicado no Huffington Post, sublinha que “Guterres pode não ser uma mulher de Leste, mas é a pessoa certa para liderar as Nações Unidas” – porque é “bem relacionado” com governos, conhecedor do Sistema das Nações Unidas e está habituado a trabalhar com a sociedade civil.

O jornalista da CNN Richard Roth fez notar que poucos acreditavam que um Conselho de Segurança dividido se iria unir em torno de um candidato. Mas a verdade é que António Guterres conseguiu-o.

O antigo primeiro-ministro português deverá chegar oficialmente ao mais alto cargo da esfera diplomática esta quinta-feira. O "trabalho mais impossível do mundo", esse só irá começar a sério em janeiro do próximo ano.