O Alto Comissário da ONU para os Refugiados, António Guterres, afirmou-se esta terça-feira em Bruxelas chocado com a falta de união europeia na questão de acolhimento de refugiados, comentando que houve mais união na crise com refugiados da Hungria, em 1956.

Intervindo numa audição no Parlamento Europeu, um dia depois de os ministros do Interior da União Europeia  terem falhado um acordo em torno da proposta da Comissão Europeia de recolocação de mais 120 mil refugiados entre os Estados-membros, adiando o assunto para outubro, Guterres disse ter ficado muito “desapontado” e "sob choque" com o desfecho da reunião extraordinária da véspera, considerando inaceitável que, numa situação de emergência, se adiem decisões para futuras reuniões.

Sem mencionar os Estados-membros que têm estado a impedir um compromisso, António Guterres recorreu ao exemplo do sucedido na década de 1950 com a Hungria, hoje um dos Estados-membros que mais se opõe a um sistema europeu de acolhimento de refugiados, para estabelecer uma comparação, na qual a Europa fica hoje a perder, realçou.

“Há 59 anos tivemos a primeira grande crise de refugiados europeia depois da II Guerra Mundial, foi a crise húngara de 1956. Nessa altura, 200 mil húngaros foram para a Áustria (180 mil) e Jugoslávia. Na altura não havia (o acordo de livre circulação de) Schengen. Mas as fronteiras foram abertas, e da Áustria foi possível lançar um programa de relocalização, tendo 140 mil húngaros sido levados para outros países europeus e o realojamento teve lugar em menos de três meses”, disse.


Guterres comentou então que “na altura a integração europeia estava a começar, não havia União Europeia, mas pelo menos essa parte da União que podia estar unida esteve unida, para proteger os húngaros vítimas da opressão e ditadura”, enquanto “hoje, infelizmente, há uma União Europeia, mas a Europa já não está unida, está dividida”.

O responsável das Nações Unidas advertiu ainda que, no plano da batalha ideológica que hoje se trava, a Europa também está a comprometer a defesa dos seus valores, pois rejeitar receber sírios, sobretudo se o motivo for por serem muçulmanos, “é algo que ajuda à propaganda do (auto-denomiado) Estado Islâmico”.

António Guterres revelou que, ao acordar hoje, às 05:00 da manhã, “ainda sob o choque das notícias” de horas de antes – referindo-se à falta de acordo entre os 28 -, pensou que o importante é ter então um “plano B”, que passará necessariamente por “avançar com o que pode ser feito imediatamente”, na ausência de um acordo definitivo.

Nesse contexto, considerou que “se a fronteira húngara se mantiver fechada”, deve ser dada “uma resposta de emergência centrada na Sérvia”, onde vem ser criada capacidades de acolhimento e assistência, e começar daí, imediatamente, o programa de recolocação de refugiados, até porque se aproxima o inverno.

Nesta que é a maior crise de refugiados desde a segunda Guerra mundial, a ONU estima que a Europa venha a receber 850 mil pessoas só este ano. No entanto, dada a proximidade com a Síria, a Turquia já ultrapassou largamente esse número, tendo recebido dois milhões de pessoas.

Grande parte usa o Mediterrâneo como via para chegar à Europa, um caminho perigoso, muitas vezes feito em barcos sem condições, que já custou a vida milhares de pessoas. Só esta manhã, mais de duas dezenas morreram ao largo da Turquia quando tentavam chegar à ilha grega de Kos.