Cerca de 750 organizações não governamentais (ONG) de todo o mundo, reunidas na campanha "1 for 7 Billion", acreditam que a indicação de António Guterres para próximo secretário-geral da ONU constitui uma vitória da transparência do processo.

O anúncio de hoje é um testamento do impacto do processo mais aberto e inclusivo pelo qual o '1 for 7 Billion' fez campanha. Guterres não era visto como um favorito no início da corrida, era dito que tinha o género e a origem regional errada", disse à Lusa a cofundadora da "1 for 7 Billion" Natalie Samarasinghe.

A responsável da "1 for 7 Billion", que foi constituída com o propósito de que o melhor candidato para o cargo seja escolhido, diz que "foi amplamente considerado que [Guterres] esteve muito bem no diálogo com a Assembleia Geral e noutros eventos, com muitas pessoas a comentares a sua experiência e capacidade de inspirar”.

A "1 for 7 Billion" (1 por 7 mil milhões), que reúne diferentes organizações, como a Amnistia Internacional ou a Federação das Associações de Comércio Internacional (FITA), e personalidades como o antigo secretário-geral da ONU Kofi Annan, foi uma das vozes mais influentes na exigência de maior transparência na eleição para secretário-geral.

A organização continua, no entanto, a pedir mais reformas no processo: "Continuamos a desejar que o processo seja melhorado. Esperamos que seja instaurado um mandato único, mais longo, o que fortaleceria muito fortemente a capacidade de António Guterres ser o líder inspirador de que a ONU precisa".

António Guterres ficou à frente e não recolheu nenhum veto na sexta votação do Conselho de Segurança das Nações Unidas, em Nova Iorque, para eleger o próximo secretário-geral da organização.

O presidente do Conselho de Segurança das ONU disse aos jornalistas, no final da sexta votação do Conselho de Segurança para secretário-geral, que o organismo espera recomendar "por aclamação" o nome de António Guterres na quinta-feira.

Guterres pode "garantir uma mudança significativa na abordagem dos direitos humanos"

O diretor para a ONU na Human Rights Watch defendeu que António Guterres, indicado como favorito para secretário-geral das Nações Unidas, tem "o potencial de garantir uma mudança significativa na abordagem dos direitos humanos".

Numa reação enviada à Lusa por correio eletrónico, Louis Charbonneau escreveu que, "com António Guterres, o Conselho de Segurança optou por um defensor dos refugiados com o potencial de garantir uma mudança significativa na abordagem dos direitos humanos num momento de grandes desafios".

Em última análise, o próximo secretário-geral da ONU será avaliado pela sua capacidade de confrontar as próprias forças que o escolheram – seja em questões sobre a Síria, Iémen, Sudão do Sul, a crise dos refugiados, as alterações climáticas ou sobre qualquer outro problema que venha a cruzar o seu caminho", acrescentou o responsável da organização, sediada em Nova Iorque.

Amnistia Internacional considera que "próximo secretário-geral da ONU terá inúmeros e enormes desafios pela frente"

O diretor executivo da Amnistia Internacional em Portugal desejou hoje "o maior sucesso" ao ex-primeiro-ministro António Guterres, indicado como favorito para secretário-geral da ONU, e alertou que o esperam "inúmeros e enormes desafios".

Numa declaração à Lusa por telefone, Pedro Neto afirmou que a Amnistia Internacional não toma posição por um candidato, mas, "sendo confirmada a eleição do engenheiro António Guterres", dá-lhe os parabéns.

Já a Amnistia Internacional em Portugal, pela "afinidade de nacionalidade, deseja-lhe o maior sucesso e que ele faça um excelente trabalho, pelos direitos humanos".

No entanto, o diretor executivo da organização de defesa dos direitos humanos alertou que "o próximo secretário-geral das Nações Unidas terá inúmeros e enormes desafios pela frente".

Em primeiro lugar, e no caso do engenheiro António Guterres, é preciso um novo acordo para os refugiados e migrantes. Ele é uma pessoa que tem muita experiência neste assunto. É dramática a situação de 21 milhões de refugiados", disse Pedro Neto, considerando a questão dos refugiados como "um dos assuntos prioritários" neste momento.

O dirigente defendeu também que o próximo secretário-geral da ONU terá de "pôr termo a crimes de larga escala que vão existindo no mundo", utilizando para isso ferramentas como a carta das Nações Unidas e toda a legislação internacional humanitária.

Dar mais peso à sociedade civil para que os direitos humanos se tornem mais relevantes, defender as pessoas marginalizadas e combater a pobreza extrema, promover a igualdade de género, combater a impunidade daqueles que cometem crimes contra a humanidade e pôr fim à pena de morte são outros desafios, afirmou Pedro Neto.

O diretor executivo da AI em Portugal argumentou ainda que o próximo secretário-geral da ONU deverá "fortalecer as Nações Unidas enquanto organização, para que ela seja muito mais relevante quanto ao impacto do seu trabalho e da sua ação nos direitos humanos".

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