O ex-conselheiro especial de Ban Ki-moon e analista da ONU Edward C. Luck acredita que António Guterres "estará, sem dúvida, entre os candidatos mais fortes" a secretário-geral das Nações Unidas, mas a sua candidatura terá de "remar contra a maré".

"António Guterres estará, sem dúvida, entre os candidatos mais fortes a próximo secretário-geral da ONU", disse Luck, em entrevista à agência Lusa, divulgada nesta segunda-feira.

A apresentação oficial da candidatura do antigo primeiro-ministro socialista, que até 31 de dezembro passado ocupou o cargo de alto-comissário das Nações Unidas para os Refugiados (ACNUR), deverá acontecer ainda este mês.

Explicando os argumentos do português, Luck lembrou que Guterres "foi, durante uma década, um eloquente defensor para o número cada vez maior de pessoas deslocadas à força" e que a luta destas pessoas "será, com certeza, um dos mais urgentes desafios que o mundo enfrentará nos próximos anos".

O professor de relações internacionais da Universidade de Columbia, em Nova Iorque, disse também que, enquanto primeiro-ministro de Portugal, Guterres mostrou "ter a perspicácia política que será essencial num ambiente político internacional e geopolítico altamente complexo e muitas vezes contencioso."

"Além disso", acrescentou, "os líderes da ONU geralmente vêm de pequenos ou médio poderes, como Portugal".

Na Carta das Nações Unidas estabelece-se que o cargo de secretário-geral é designado pela Assembleia Geral da organização, depois de aprovado pelo Conselho de Segurança, onde tem de passar pelo crivo dos cinco países com assento permanente e poder de veto: Estados Unidos da América, Reino Unido, Rússia, França e China.

Essa eleição, que decorrerá ainda durante este ano, é um processo complexo que envolve vários equilíbrios geoestratégicos e que obedece à necessidade de os candidatos preencherem diversos critérios.

Sobre os obstáculos que o português enfrentará, Luck salientou que "o campo de candidatos este ano é invulgarmente forte, uma vez que os estados-membros começam a perceber quão importante é este cargo para fazer avançar uma agenda global progressiva que enfrente ameaças e oportunidades comuns".

Da Bulgária surgiram dois nomes, a diretora geral da Unesco, Irina Bokova, que é apoiada oficialmente pelo governo, e a comissária europeia para o Orçamento e Recursos Humanos, Kristalina Georgieva.

A Macedónia apresentou o nome do seu ex-ministro dos Negócios Estrangeiros e atual presidente da Assembleia Geral da ONU, Srgjan Kerim.

A Croácia apoia a candidatura da sua ministra dos Negócios Estrangeiros e Assuntos Europeus, Vesna Pusíc.

Quanto à Eslovénia, apresentou o nome do ex-Presidente da República Danilo Türk.

Olhando para este grupo de candidatos, Edward C. Luck defendeu que "género e geografia não favorecem" António Guterres na eleição deste ano.

"Muitos membros expressaram a determinação de encontrar uma mulher altamente qualificada para o cargo, algo que seria inédito. Várias mulheres promissoras declararam a sua intenção ou aguardam nos bastidores", explicou.

O especialista indicou ainda que "um número de países, especialmente da Europa de Leste ou do mundo em desenvolvimento, parece sentir que este é o momento certo para a Europa de Leste ter o cargo".

"Por isso, apesar de Guterres ser soberbamente qualificado para tornar-se o próximo secretário-geral, o seu caminho será contra a maré", concluiu Edward C. Luck.

António Guterres também reconheceu, esta semana, que existem "muitas dificuldades" na sua candidatura, mas disse que entendeu ser seu dever manifestar essa disponibilidade.

"Não é fácil como é sabido, há um conjunto de circunstâncias complexas que rodeiam essa eleição, mas acho que é meu dever estar disponível, mas com muita tranquilidade", afirmou, depois de ter sido condecorado pelo Presidente da República com a Grã-Cruz da Ordem da Liberdade.