"É com gratidão e humildade e com grande sentido de responsabilidade que me apresento hoje"

António Guterres, o novo secretário-geral das Nações Unidas, foi esta quinta-feira aclamado pela Assembleia-geral da ONU. No discurso, após a aclamação, o ex-primeiro-ministro português repetiu algumas ideias e emoções, reveladas logo após a escolha do seu nome pelo Conselho de Segurança das Nações Unidas: "gratidão e humildade". E às quais juntou, agora, “um profundo sentido de responsabilidade”.

Uma das primeiras garantias que deixou foi o facto de estar "ao serviço de todos, sem nenhuma agenda, a não ser a da Carta das Nações Unidas”.

Momentos antes, tinha considerado que "o grande vencedor" da eleição para secretário-geral, tinha sido "a credibilidade das Nações Unidas", após "uma decisão notável de consenso e união".

Conscientes dos "desafios das Nações Unidas" perante "os problemas dramáticos do mundo complexo de hoje em dia", António Guterres garantiu que deseja ser "um mediador, um construtor de pontes" que quer "encontrar soluções" e que vai sempre privilegiar uma “abordagem humilde”.

Recordando a anterior função, no Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados, Guterres lembrou que testemunhou "o sofrimento dos povos mais vulneráveis da Terra" e deixou uma pergunta: "O que é aconteceu à dignidade do seu humano, o que nos tornou imunes à causa dos desfavorecidos?"

Em seguida, o novo secretário-geral da ONU, destacou a importância da "igualdade de géneros" e reconheceu saber "da luta que as mulheres travam, só por serem mulheres". Seja em casa ou no trabalho. Garantiu depois que a questão da paridade sempre foi "em todos os cargos" que assumiu, e continuará a ser, "um compromisso prioritário para mim".

Para António Guterres "a diversidade" tem de ser vista como "uma mais valia" que serve para "juntar" e não para "afastar". A diplomacia "para a paz" será sempre "uma prioridade" e o ex-primeiro-ministro quer que "as Nações Unidas sejam um fórum de diálogo" e se possa "ouvir uns aos outros".

"Temos de garantir que somos capazes de quebrar as alianças entre os grupos terroristas e os grupos extremistas violentos, por um lado, e as expressões de populismo e xenofobia por outro lado"

Guterres concentrou-se ainda na paz, “a grande ausente” do mundo de hoje. “Sem paz, não podemos garantir o desenvolvimento sustentável e o respeito pelos direitos humanos”.

“Quando estudava História no liceu, e com paixão, quase todas as guerras terminavam com vencedores. Mas os conflitos atuais não conhecem mais nada além de perdedores”, distinguiu, sublinhando que “as guerras parecem intermináveis, são mais e mais complexas e interligadas e alimentam o ódio e o terrorismo”.

E voltou a assumir o “profundo sentido de responsabilidade” de que já tinha falado antes:

“É nossa responsabilidade coletiva acabar com este estado de coisas. Estamos a lutar em conjunto pela paz"

Os 193 países membros das Nações Unidas ratificaram, esta quinta-feira, em Assembleia-geral, por aclamação, a escolha de António Guterres para liderar a organização, feita em 05 de outubro pelo Conselho de Segurança, o principal órgão decisório da ONU.

António Guterres, antigo primeiro-ministro de Portugal e ex-alto-comissário das Nações Unidas para os Refugiados, será, a partir de 01 de janeiro de 2017, o 9.º secretário-geral da ONU, com um mandato de cinco anos, sucedendo ao coreano Ban Ki-moon.

A questão da Síria

Após a intervenção perante a Assembleia-geral da ONU, António Guterres, apareceu junto da comunicação social para mais uma breve intervenção. Desta vez, em resposta às perguntas dos jornalistas. E drama da guerra que se vive na Síria, aquele que será um dos seus grandes desafios, foi o mote. 

Perante a pergunta, garantiu que sente "uma grande solidariedade para com o povo sírio." Mas foi mais longe:

"Fui Alto Comissário para os Refugiados e vi os sírios abrirem as suas fronteiras, as portas das suas casas e dos seus corações para milhões de refugiados que entravam. Ver o povo sírio a sofrer tanto é algo que absolutamente parte o meu coração"

Apesar de não poder dar garantias ou fazer grandes promessas, António Guterres garantiu: "darei o meu melhor para servir a causa da paz para o povo sírio, mas agora, existe um secretário-geral da ONU a trabalhar para isso. Testemunho também o facto de que os países chave vão encontrar-se de novo e tentar avançar", disse, explicando que "é uma obrigação moral" de todos "parar o sofrimento do povo sírio".