Uma série de “suicídios caninos” registados nos últimos meses na zona metropolitana de Madrid levou a Procuradoria-Geral do Estado a exigir explicações à Polícia Municipal da capital espanhola, que deverá investigar se estes casos não se tratam de maus tratos a animais encobertos.

A notícia foi avançada esta quinta-feira pelo jornal El Mundo, que cita a nota enviada pela Procuradoria à Unidade do Meio Ambiente da Polícia Municipal.

A Procuradoria escreve que durante o verão registaram-se vários casos de cães mortos em situações classificadas como “suicídio”, pelo que a frequência anormal destes casos deve ser investigada.

Comprova-se que se trata de uma série de ocorrências que não se verificavam antes, ou que, se aconteciam, eram casos bastante isolados. Ultimamente, porém, a frequência com que têm vindo a registar-se é impressionante."

Foi pedido aos agentes responsáveis que “abram uma investigação com o objetivo de comprovar que não se trata de um novo ‘modus operandi’ dentro do espectro dos maus tratos a animais domésticos”.

Segundo confirmaram fontes da Polícia Municipal de Madrid ao El Mundo, entre os casos registados estão pelo menos três de cães que caíram, ou se atiraram, de varandas altas e outro que terá morrido asfixiado com um saco de plástico.

Para que a causa da morte seja classificada como suicídio, os investigadores têm de excluir que não existiram maus tratos aos animais, o que significa que se infirmou que a morte resultou de uma decisão tomada pelo animal. Em vários destes casos em que os cães se atiraram da varanda não se verificou que o animal tivesse sido maltratado, tal como na situação do saco de plástico, em que foi o cão que meteu a cabeça dentro do objeto e não a retirou.

 

Os animais cometem suicídio?

Os casos de suicídio no mundo animal causam estranheza porque o forte instinto de sobrevivência é exatamente o que move os animais e que faz com que fujam de perigos e evitem certos riscos. Falta aos cães, assim como aos outros animais, a autodeterminação e racionalidade necessárias para a compreensão do que significa por fim à própria vida, que os humanos são capazes de perceber.

Sabe-se que vários animais põem termo à própria vida, mas isso não quer dizer que saibam o que estão a fazer. Se os animais não têm consciência de que eventualmente vão morrer, como os humanos, não entendem que podem provocar a morte antecipadamente.

António Petri, psiquiatra na Universidade de Cagliari, Itália, analisou cerca de mil estudos sobre o assunto e não encontrou provas de que alguma animal tenha cometido suicídio conscientemente. O autor dá o exemplo de alguns cães que morrem pouco depois dos donos e explica que o animal não decidiu partir com o seu amigo humano, esse comportamento parte do vínculo formado entre ambos que faz com que o animal não aceite comida de mais ninguém.

Os animais têm emoções e podem ficar depressivos ou sofrer de stresse pós-traumático, como o exemplo descrito, mas ainda assim não sabem que a decisão que tomam, neste caso de não aceitar comida, os vai levar à morte, que é eterna. Este processo requer um tipo de compreensão que apenas os humanos entendem.

Pensar que um animal morreu de suicídio como uma pessoa é apenas uma projeção de um estido de interpretação (romântica) humana”, disse Petri à BBC.

O psiquiatra dá, ainda, outro exemplo de uma ursa que vivia em cativeiro na China que sufocou a cria, matando-se de seguida. A situação aconteceu depois de ter sido feita uma extração de bílis à cria com uso de um cateter e foi vista como uma forma do animal evitar mais sofrimento. Porém, a reação da ursa, assim como as orcas que tentam ficar fora dos tanques onde são mantidas em parques aquáticos, por exemplo, pode ser o resultado de stresse e revolta de estar preso e de não conseguir escapar. Novamente, o comportamento induz a morte, mas isso não significa que os animais entendam que é uma escolha irreversível, como os humanos.

Para Ajit Varki, da Universidade da Califórnia, a ideia do suicídio animal também não faz sentido porque requer um nível elevando de autoconsciência. Em entrevista à britânica BBC, Varki explicou que ainda que os animais sintam emoções, reconheçam os mortos e tenham medo de cadáveres, estes não vêm a morte como “uma realidade”. Têm, sim, medo das “situações que podem levar à morte”, uma necessidade em permanecer vivo, mas não medo de morrer por saberem que é para sempre, como nós.

“Suicídio é induzir a própria mortalidade, mas como podes induzi-la se não sabes que és mortal? É lógico que o suicídio seja algo exclusivamente humano”, afirmou à BBC.