O ativista angolano Luaty Beirão anunciou, esta terça-feira, o fim da greve de fome que começou há 36 dias.

Luaty Beirão enviou uma carta ao jornal "Rede Angola" onde agradece a solidariedade de todos os que apoiaram a sua causa e onde diz que não vai "desistir de lutar", nem abandonar os companheiros e todas as pessoas que manifestaram tanto amor e que lhe encheram o coração.

“Não vou desistir de lutar, nem abandonar os meus companheiros e todas as pessoas que manifestaram tanto amor e que me encheram o coração."


Luaty dedica a carta aos 14 companheiros, também detidos, que na semana passada tinham pedido ao cantor para terminar a greve de fome.
 
O ativista escreve que devido ao acesso a mais visitas e ao consumo de informação, conseguiu aperceber-se dos movimentos de solidariedade e indignação em relação ao processo. Luaty Beirão termina a carta com um "obrigado" e com a esperança de que o apoio da sociedade civil nacional e internacional e dos meios de comunicação social "não pare".

Em declarações à agência Lusa, e remetendo mais informações para a família, o advogado Luís Nascimento confirmou que a decisão, agora revelada, já "era esperada"

"Ele quando falou comigo, na segunda-feira, já encarava essa possibilidade, de terminar a greve de fome. Era mais do que provável, de certo modo rendia-se aos apelos dos colegas e nomeadamente o último, que foi feito pela esposa, por causa da filha", disse o advogado à Lusa.


Henrique Luaty Beirão, de 33 anos, é um dos 15 jovens em prisão preventiva desde junho e formalmente acusado desde 16 de setembro pelo Ministério Público angolano de atos preparatórios para uma rebelião e um atentado contra o Presidente angolano, José Eduardo dos Santos. Além dos 15 detidos, mais duas jovens estão em liberdade provisória.  

O ativista começou a greve de fome, por "vontade própria", por entender que os seus "direitos constitucionais" estão "a ser desrespeitados", exigindo - como prevê a lei angolana para o crime em causa - aguardar julgamento em liberdade. 

O início do julgamento, que envolve outras duas arguidas em liberdade provisória, está agendado para 16 de novembro, no Tribunal de Cacuaco, nos arredores de Luanda.

Mónica Almeida, esposa do ativista, contou à Lusa que Luaty vai agora travar duas "batalhas", recuperar a forma física e provar a sua inocência em tribunal. 

"Percebeu que realmente o objetivo dele já estava alcançado e que agora tem que se preparar para o próximo passo. É uma decisão que ele tomou por causa de um somatório de acontecimentos, de apelos, e está normal. Tem que recuperar, porque foram 36 dias sem comer", explicou, após visitar Luaty Beirão.

A mulher contou que o ‘rapper' pesa 62 quilogramas, menos 23 do que quando iniciou a greve de fome, a 21 de setembro, exigindo aguardar julgamento em liberdade.

Entretanto, o embaixador angolano em Lisboa   criticou a aprovação, a 13 de outubro, pela Assembleia Municipal de Lisboa, de um voto de solidariedade com Luaty Beirão. 

"Posicionámos também ao Ministério dos Negócios Estrangeiros que não vemos com bons olhos esta atitude, que no fundo vai interferir com os assuntos do país e portanto manifestamos o nosso desagrado", afirmou o embaixador angolano em Lisboa, nas declarações de hoje.

Pode ver a carta que Luaty Beirão enviou à Rede Angola logo abaixo.
 

 



 

Ativistas reagem ao fim da greve de fome


O também ativista Rafael Marques considerou que a ação de Luaty Beirão é um “feito histórico” que despertou consciências sobre Angola cumprindo um dia de greve de fome por cada ano do Presidente José Eduardo dos Santos no poder.

“O Luaty, rebelde como sempre, terminou os 36 dias que significam também os 36 anos de poder do Presidente da República. É simbólico e é também uma declaração, uma prova de resistência do Luaty. Foi um dia de greve por cada ano no poder do Presidente José Eduardo dos Santos”, disse à Lusa o autor do livro “Diamantes de Sangue”.


Para Rafael Marques, que visitou na semana passada os 15 acusados de prepararem um golpe de Estado, o fim do protesto é uma notícia que deve “alegrar todos” considerando que a greve de fome de Luaty Beirão foi “um feito histórico que fica para os anais da História angolana”.

“Não há aqui vitórias nem derrotas porque o importante aqui foi o despertar para a realidade e para as injustiças que nós passamos e também fazer compreender ao Presidente José Eduardo dos Santos, e ao seu regime, que o mundo mudou e a opinião que o mundo hoje tem sobre o regime já é completamente diferente e, por isso, ou dialoga com a sociedade e encontra saídas ou continuará a ser isolado na cena internacional”, afirmou Rafael Marques.

Por sua vez, o escritor angolano José Eduardo Agualusa considerou que o objetivo da greve de fome do rapper "não foi cumprido", mas "chamou a atenção" para a questão dos presos políticos em Angola.

"O objetivo a que se propunha não foi conseguido, que era o de esperar em liberdade pelo julgamento. Mas, na realidade, aquilo que mais importava, que era chamar a atenção para os presos políticos, foi conseguido completamente. Gerou-se um movimento de solidariedade dentro e fora do país, que gerou uma dimensão que ninguém estava à espera. Aí ele triunfou completamente", frisou o escritor angolano.

Questionado pela Lusa sobre se é abusivo falar de um eventual "outono angolano", em contraponto à "primavera árabe", Agualusa salientou que, depois desta situação, a sociedade civil angolana “parece estar envolvida numa discussão, inquietação e desejo crescentes" de mais democracia e liberdade.

"Neste momento, o Governo angolano não deu o menor sinal de abertura. Pelo contrário, o que vimos foi sempre um crescente fechamento e intolerância. Isso aconteceu mesmo em relação ao Luaty. Ficamos com a sensação de que, se dependesse do Governo angolano ou mesmo do presidente José Eduardo dos Santos, o Luaty teria morrido de fome", salientou.

"Não houve o menor sinal de empatia com a situação ele. O presidente não deu a menor indicação, nem se pronunciou. Ficou em silêncio este tempo todo. Da parte do Governo não há qualquer sinal de abertura", acrescentou.
 

Angola acha que "pode pressionar" as autoridades portuguesas


Sobre as críticas do regime angolano ao envolvimento de Portugal na questão de Luaty Beirão, o escritor realçou a ideia de que Angola "tem a sensação, já provada ao longo da História, de que pode pressionar" as autoridades portuguesas.

"Quando um dirigente angolano se pronuncia contra Portugal, o Governo português realmente estremece e reconsidera a sua posição. O caso mais anedótico foi o do ministro dos Negócios Estrangeiros português (Rui Machete) que foi a Luanda pedir desculpa aos dirigentes angolanos por causa de algo de que se deveria orgulhar", lembrou.

"A partir do momento em que o Governo angolano pode manobrar o português vai continuar a fazê-lo. Por exemplo, o Governo angolano não se pronuncia quando é o Brasil a tomar uma posição semelhante. Ou os Estados Unidos, ou a União Europeia. Porque tem medo do Brasil, dos Estados Unidos e da União Europeia, mas não tem medo de Portugal", concluiu.

Já a presidente da Fundação José Saramago, Pilar del Rio, congratulou-se hoje com o fim da greve de fome de Luaty Beirão, afirmando que o ativista "é necessário para o processo de democratização de Angola".

"Estou contente. Ele foi sensível aos pedidos da família e às petições de muitas pessoas solidárias", disse Pilar del Rio, contactada pela agência Lusa.


A presidente da Fundação José Saramago tinha enviado uma carta ao Presidente de Angola pedindo a libertação do ativista e dos outros 14 jovens com ele detidos em Luanda.

Luaty Beirão "é completamente necessário ao processo urgente de democratização que Angola precisa", sustentou a viúva do Nobel da Literatura José Saramago.

A eurodeputada Ana Gomes saudou hoje a decisão do ativista de por fim à greve de fome, que considerou um “grande alívio”, elogiando a sua determinação e dos restantes presos em “mostrar a face do regime” angolano.

“A luta continua, a vitória é certa, é o grito da guerra de independência de Angola, que eu agora ecoo, 40 anos depois, saudando esta decisão do Luaty Beirão de por fim à greve de fome, para grande alívio nosso”, declarou a deputada, à margem da sessão plenária do Parlamento Europeu, que decorre em Estrasburgo, França.

Também a eurodeputada do BE saudou a “força” e a “generosidade” do ativista. Marisa Matias aproveitou para “agradecer a resistência feita de forma altruísta e envolvendo o risco da sua própria vida”.