Elementos de Polícia de Intervenção Rápida de Angola efetuaram disparos para o ar para impedir o porta-voz da UNITA de prestar declarações à imprensa estrangeira durante a manifestação convocada para este sábado por este partido em Luanda, constatou a Lusa no local.

Alcides Sakala estava a descrever a agência Lusa, Reuters e AGI (de Itália) a forma como foram utilizadas granadas de gás lacrimogéneo por volta das 09:00 (08:00 em Lisboa) no início da concentração para a manifestação do maior partido da oposição de Angola.

Os manifestantes que rodeavam Sakala e os quatro jornalistas estrangeiros pediam insistentemente à imprensa que não abandonasse o local como garantia de que a polícia não lhes podia bater.

O investigador Eugénio Costa Almeida defendeu hoje que a presença do presidente de Angola, José Eduardo dos Santos, no país «era exigível» neste momento para acalmar os ânimos, uma vez que «continua a ser o suporte da unidade nacional».

«O presidente [angolano], José Eduardo dos Santos, não está no país. Gostemos ou não gostemos da pessoa do ponto de vista exclusivamente político, ele é o cimento que mantém a unidade nacional», disse à agência Lusa o investigador do Centro de Estudos Africanos, do Instituto Superior das Ciências do Trabalho e da Empresa (ISCTE), em Lisboa.

O presidente angolano, José Eduardo dos Santos, partiu no dia 09 de novembro para Barcelona, numa visita privada, cuja duração não foi anunciada, tendo sido substituído pelo vice-presidente do país, Manuel Vicente, como prevê a Constituição.

Eugénio Costa Almeida disse que «não há indicação» de que Eduardo dos Santos tenha voltado para Angola, considerando que «mais do que nunca a sua presença agora seria bem-vinda para tentar acalmar todas as partes envolvidas».

«A UNITA não concorda com quase todas as posições do MPLA, a CASA-CE não concorda nem com um nem com outro, mas há uma coisa que qualquer uma das partes reconhece em José Eduardo dos Santos, que é [o facto de ser] a figura institucional para manter a unidade do país. Mais do que nunca a sua presença era exigível agora», reiterou o académico.

O maior partido da oposição em Angola, a UNITA, protesta hoje nas ruas de Luanda «contra a repressão», numa manifestação cuja convocatória se rodeou de polémica, com o Governo a proibir a sua realização.

Em causa está, segundo um comunicado do Ministério do Interior a coincidência do evento com outra iniciativa política, do partido no poder, o MPLA, e que para as autoridades policiais poderia colocar em causa a ordem e segurança públicas.

Entretanto, pelo menos 126 dirigentes nacionais e militantes de base da coligação eleitoral Convergência Ampla de Salvação de Angola (CASA-CE) continuam detidos em várias esquadras de Luanda.

Eugénio Costa Almeida entende que as autoridades angolanas não procederam corretamente neste processo, embora não consiga antever as potenciais consequências destas ocorrências na capital angolana.

«A UNITA atempadamente convocou uma manifestação para hoje, seguiu os preceitos constitucionais. Houve tempo mais do que suficiente para o Governo provincial ter questionado e eventualmente aconselhado a não execução por razões várias. Não o fez e só ontem [sexta-feira] é que o Ministério do Interior decidiu pela sua proibição», resumiu o académico.

«Não me parece que tenha sido muito correto da parte das autoridades [angolanas] a utilização da força como foi», afirmou o investigador, referindo «o aspeto bélico» da operação policial.