Anders Fogh Rasmussen termina esta terça-feira o mandato de cinco anos como secretário-geral da NATO. O dinamarquês de 61 anos, que já foi primeiro-ministro no país nórdico, assumiu a liderança da aliança militar internacional a 1 de agosto de 2009, na altura sucedendo ao holandês Jaap de Hoop Scheffer, e agora será substituído pelo antigo primeiro-ministro da Noruega Jen Stoltenberg.

Rasmussen admitiu recentemente que o seu «maior arrependimento» ao longo do seu percurso como secretário-geral foi a Rússia de Vladimir Putin. 

Num texto divulgado pela imprensa estrangeira, o dinamarquês afirmou que os russos têm mostrado «desrespeito pelas leis internacionais» e uma forte determinação em «redesenhar as suas fronteiras, através da força». Rasmussen vai mais longe e considera que o grande plano de Moscovo é impedir que os seus «vizinhos escolham o seu próprio caminho», para que possam criar «uma esfera de influência».

«Apesar dos nossos esforços desde a queda do comunismo, a Rússia não nos considera um aliado, mas um adversário», escreveu.

As declarações do secretário-geral remetem para a anexação da Crimeia e para o conflito no leste da Ucrânia entre tropas ucranianas e separatistas pró-russos, que fez mais de 3000 mortos. A Rússia foi, por diversas vezes, acusada de armar os separatistas e contribuir para a intensificação dos combates.

«O que a Rússia está a fazer atualmente na Ucrânia viola os princípios das Nações Unidas. Ameaça a paz e a segurança na Europa», disse em Bruxelas. 

No seguimento das ações de Moscovo, a NATO de Rasmussen decidiu criar uma força especial sediada na Polónia que estivesse pronta a atuar em poucos dias, em qualquer ponto do globo, mas com uma presença «permanente» no leste europeu.  A medida foi anunciada na Cimeira de Newport (País de Gales), no início do mês.

Uma força de ação-reação com cerca de 4000 soldados que pretende também ser uma resposta ao movimento jihadista no Iraque e na Síria que, nos últimos meses, tem conseguido levar para o Médio Oriente milhares de combatentes europeusA constituição e expansão de grupos ligados ao fundamentalismo islâmico é, de resto, tida como uma das maiores ameaças à segurança pela comunidade internacional.

No País de Gales, os aliados estabeleceram um acordo que abrange o apoio ao Iraque no combate ao Estado Islâmico (EI) e a troca de informações para monitorizar os combatentes estrangeiros que regressem aos países de origem.

«Combater o EI exige que o mundo trabalhe em conjunto nos próximos anos que se vão seguir», afirmou.

O secretário-geral considera que a NATO está mais forte agora do que quando começou o mandato, destacando a eficiência e a conexão «maior que nunca» entre as forças armadas.

Um trabalho que terá sido iniciado no Afeganistão, onde Rasmussen teve a sua primeira missão como líder da aliança.  A ISAF (Força Internacional de Assistência e Segurança) tinha sido criada para o Afeganistão, em 2001, no sentido de ajudar o país a reorganizar-se, constituindo um governo e instituições sociais eficazes e lutando contra os rebeldes que se pudessem insurgir. Na altura, muitos foram os que contestaram a operação, acreditando que se tratava mais de uma intervenção estratégica do que de assistência.

O dinamarquês foi o responsável que acompanhou a transferência de responsabilidades das forças aliadas para as forças afegãs. Um encontro com o antigo Presidente  Karzai terá ainda sido fundamental para discutir e planear as eleições presidenciais e as de governo local.

Aqui, a NATO diz ter estabelecido a maior coligação de assistência internacional dos últimos anos e, c om a ajuda de novos parceiros, promete a partir de janeiro do próximo ano prosseguir a missão, disponibilizando treino militar, conselhos estratégicos e assistência às forças do país.

Também na Líbia, durante a guerra civil, em 2011, a intervenção da organização foi crucial para o golpe de estado que levou à queda do governo de Muamar Gaddafi. Sete meses foi o tempo que durou uma operação militar que, no entanto, recusou fornecer armamento aos civis.

«Não estamos na Líbia para armar as pessoas. Estamos na Líbia para proteger os civis contra os ataques».

Recorde-se que a morte de Gaddafi, quando o antigo líder tentava fugir de Sirte, foi conseguida pelos rebeldes através dos apoios militares aéreos da aliança.

Se se recuar a 2009, não se pode dizer que a nomeação de Rasmussen para secretário-geral da NATO tenha sido consensual, pelo contrário. A Turquia e a comunidade muçulmana europeia manifestou-se contra a escolha do dinamarquês.  Uma posição que poderá estar relacionada com o passado do líder enquanto primeiro-ministro da Dinamarca.

Em 2003, Rasmussen apoiou a invasão do Iraque pelos Estados Unidos de George W. Bush e, na altura, declarou que havia provas de que o país tinha armas de destruição maciça. Mas em 2004, o analista Frank S. Grevil veio desmentir as afirmações, divulgando informação confidencial da agência de segurança dinamarquesa EF, tendo sido preso durante quatro meses por isso. 

No entanto, e apesar de algumas vozes mais críticas, cinco anos depois da cerimónia em Estrasburgo que o elegeu como secretário-geral, Rasmussen parece olhar para trás com a certeza de dever cumprido.

«Mesmo com mais operações do que nunca, fizemos reformas e aperfeiçoamentos. Assim, hoje a NATO está mais apta, mais rápida e mais flexível.»