Anders Breivik, o autor confesso, dos atentados de há uma semana na Noruega, «está obcecado com o multiculturalismo». Para Riccardo Marchi, investigador do Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa e especialista no estudo da extrema-direita, mais do que «ódio de raça», Breivik sofre de «ódio de cultura».

«Breivik está obcecado com o multiculturalismo, em particular com o facto de uma cultura - a islâmica - radicalmente diferente da europeia e em fase de crescimento no nosso continente, devido às taxas de imigração e de natalidade dos islâmicos, seja uma ameaça à pretensa homogeneidade da civilização europeia», avalia Riccardo Marchi, numa entrevista ao tvi24.pt.

O especialista recorda que Breivik defende «uma aliança com o nacionalismo sionista» e «entende o sionismo um baluarte para os valores da civilização ocidental, do espaço geográfico e civilizacional do ocidente». «Esta aliança nunca seria aceite por um neonazi, por exemplo, que considera o judeu um seu inimigo de raça e de cultura», lembra.

«O caldo cultural do Breivik deve ser procurado muito mais que no racismo biológico», resume Riccardo Marchi.

Breivik enviou o seu manifesto a pelo menos 21 portugueses , uma hora antes de levar a cabo os atentados. Algo que não surpreende Riccardo Marchi: «Breivik actuou muito nas redes sociais, onde é muito provável que tenha entrado em contacto também com radicais portugueses».

Extrema-direita portuguesa não oferece «perigo de maior»

Mas Riccardo Marchi considera que a extrema-direita portuguesa não oferece «perigos de maior». «A relativa exiguidade da extrema-direita portuguesa em termos numéricos e o seu historial de violência no final dos anos 80 fazem com que ela, nas suas franjas mais radicais, esteja, já há vários anos, abundantemente vigiada e monitorizada pelos serviços de segurança», sublinha, acrescentando, ainda assim, que «a acção isolada de um ¿lobo solitário¿ ou de células reduzidas, organizadas em redes e sem líderes, é sempre difícil de prever, tanto mais num país com baixo nível de violência e sem historial de luta armada como Portugal (e a Noruega)».

Em Portugal, «a extrema-direita encontra-se organizada em partido político, em movimentos e em aderentes não filiados em nenhuma organização». O Partido Nacionalista Renovador (PNR) é o único partido político português assumidamente de extrema-direita. O especialista acredita que não terá mais do que «poucas centenas de filiados em todo o território nacional» e sublinha que tem obtido «resultados eleitorais marginais, que até agora não ultrapassaram os 18 mil votos (0,3 por cento nas legislativas de 2011».

Riccardo Marchi fala num «contínuo aparecimento, mas também desaparecimento de movimentos de cariz nacionalista» e em «dificuldades de extrema-direita portuguesa de se estruturar».