John Corcoran nasceu no Estado norte-americano do Novo México. Frequentou a escola e a universidade e tornou-se professor. Deu aulas durante 17 anos, escondendo sempre um segredo no mínimo improvável: John não sabia ler nem escrever.

O segredo foi mantido durante mais de 40 anos. Durante a maioria deste tempo rigorosamente ninguém sabia desta incapacidade extrema de John para as letras. A sua história é agora contada Sarah McDermott, da BBC. Um depoimento carregado de honestidade, em que John revela mesmo as estratégias que usava para ludibriar professores, colegas e alunos.

Demorei a aprender a falar, mas frequentava a escola cheio de expectativas de aprender a ler como as minhas irmãs. E tudo correu bem nos primeiros anos, porque o que mais se exigia das crianças era fazer fila, sentar, ficar caladas e ir à casa de banho no horário determinado”, diz.

John diz que logo nos primeiros anos da primária, os livros lhe pareciam mais um jornal escrito em chinês. “Eu não entendia o que estava naquelas linhas. E, aos seis, sete e oito anos de idade, não sabia como explicar esse problema”, recorda.

O “milagre” que não acontecia de manhã

Diz que, em criança, nas orações da noite, pedia a Deus o “milagre” de acordar de manhã a conseguir ler.

Na escola, fui colocado na fila dos 'burros', com um monte de outras crianças com dificuldades para aprender a ler. Não sabia como tinha ido parar ali, como sair dali e nem que perguntas eu precisava fazer.”

O rótulo não era dado pelo professor, mas pelos colegas: “E quando nos sentamos na fia dos burros, começamos a achar que somos mesmo burros.”

O professor, aliás considerava-o inteligente e John foi passando de ano. Quando chegou ao primeiro ciclo diz que já tinha desistido de aprender a ler e a escola começou a ser uma tortura. “Odiava a sala de aula. Era um ambiente hostil e eu precisava encontrar formas de sobreviver”, recorda.

Começou a ter problemas disciplinares e chegou a ser expulso. Depois, percebeu que o caminho tinha de ser o contrário: passou a ser “um queridinho do professor e fazer todo o possível para ludibriar o sistema”.

Era um bom atleta e passou a usar essas habilidades. Passou a usar também as melhores habilidades sociais namorava a melhor aluna da escola e, ainda no secundário, dava-se com estudantes que já andavam na universidade.

“Meu Deus, isso é demais para mim, como vou fazer?”

Era capaz de escrever o próprio nome, mas não conseguia escrever uma frase completa. Entrou para a universidade com uma bolsa para atletas que se destacam: “Pensei: 'Meu Deus, isso é demais para mim, como vou fazer?'”

Mas foi sempre arranjando estratagemas para cabular. Por exemplo, nos exames, ficava junto à janela e, do lado de fora, ficava um dos melhores alunos com quem se dava que lhe respondia à prova.

Chegou, literalmente, a assaltar o gabinete do professor. Roubou o armário onde o docente guardava as provas fechadas à chave, levou o armário a um serralheiro que lho abriu, tirou o exame, que um colega lhe resolveu, e voltou a devolver o armário ao gabinete do professor na mesma noite.

Tornou-se professor. Afinal ninguém nunca duvidaria que um professor não fosse capaz de compor uma frase completa. As aulas eram dadas recorrendo a filmes e trabalhos de grupo: “Nunca escrevi uma frase”.

Denunciado pela filha de três anos

Foi treinador de atletismo, ensinou estudos sociais e, espante-se, ensinou digitação. “Conseguia digitar 65 palavras por minuto, sem saber o que estava a digitar”, relembra.

Casou-se e partilhou o segredo com a mulher, mas ela não levou a sério, nem nunca associou a essa confissão o facto de o marido lhe pedir constantemente para escrever ou ler coisas.

Só um dia, quando lia uma história à filha de três anos (na verdade, inventava uma história) é que foi descoberto. A criança confrontou-o: a história que o pai lhe “lia” não era a mesma que lhe costumava ler a mãe.

A mulher não o confrontou e simplesmente continuou a ajudá-lo.

Fui professor entre 1961 e 1978. Oito anos depois de deixar o meu emprego, algo finalmente mudou.”

 

Tinha quase 48 anos quando vi Barbara Bush, então primeira-dama dos EUA, a falar sobre analfabetismo adulto na TV. Era a causa que ela combatia. Eu nunca tinha ouvido ninguém falar de analfabetismo adulto antes, achava que era a única pessoa do mundo naquela situação.”

“O bom da poesia é que não é preciso escrever em frases completas”

Nessa altura, procurou ajuda e uma voluntária ensinou-o a ler. A primeira coisa que escreveu com aquilo que aprendeu foi um poema: “O bom da poesia é que não é preciso escrever em frases completas.”

Aprendeu a ler como um miúdo do sexto ano: “Era como se eu tivesse morrido e ido ao paraíso. Mas demorei sete anos para me sentir alfabetizado. Eu chorava, chorava, chorava depois de começar a ler - foi um processo repleto de dor e frustração -, mas isso preencheu um buraco enorme na minha alma. Adultos que não sabem ler tiveram sua infância suspensa, emocionalmente, psicologicamente, academicamente, espiritualmente. Somos pessoas que não cresceram.”

Por vergonha, para proteção da família, demorou também a ganhar coragem para contar a própria história. As primeiras vezes que deu o seu testemunho foi logo em programas de televisão de grande audiência, como os da Oprah, ou do Larry King.

John diz que contar tudo isto foi incómodo e chegaram a duvidar da veracidade da história, mas não desistiu de a espalhar por uma razão: “Infelizmente, continuamos a empurrar crianças e adolescentes pelo sistema escolar sem nos certificarmos que lhe ensinámos habilidades básicas de leitura e escrita. Mas podemos romper esse ciclo de fracasso se, em vez de culpar os professores, nos assegurarmos de que eles sejam devidamente treinados.”

“Por 48 anos, eu vivi no escuro. Mas finalmente eu enterrei o fantasma do meu passado."