Continuam os elogios da Europa aos programas de ajustamento de Portugal e Irlanda e, consequentemente, as «indiretas» à Grécia. Esta quarta-feira, véspera do dia em que o governo grego vai entregar o pedido de extensão para mais seis meses do empréstimo concedido ao país, foram várias as vozes que, mais uma vez, alertaram o governo de Alexis Tsipras para as condições das ajudas da Europa.

Maria Luís Albuquerque, Wolfgang Schäuble, Angela Merkel e até Cavaco Silva voltaram a avisar o governo grego que os compromissos são para cumprir, e que a margem para negociações é curta.

A ministra das Finanças disse, em Berlim, que a posição do Eurogrupo continua a mesma, e que as negociações com a Grécia passarão sempre por uma extensão do programa de ajustamento. Maria Luís Albuquerque lembrou que Portugal também ajustou as condições do seu programa, mas sempre depois de o país se ter mostrado como «um parceiro credível», que planeava cumprir as regras impostas.

Wolfgang Schäuble, ministro das Finanças da Alemanha, usou, até, o exemplo de Portugal e da Irlanda para demonstrar que os programas de ajustamento funcionam na generalidade das vezes, e que o importante é não destruir a «confiança» entre países ajudados e credores.

Apesar do «braço de ferro» dos últimos dias entre a Europa e a Grécia, Schäuble lembrou que que a UE sempre foi «flexível» em renegociar «uma e outra vez» com os países sob programa aspetos dos memorandos de entendimento, mas sempre tendo por base essa «confiança mútua».

A chanceler alemã, Angela Merkel não usa a expressão «flexibilidade», mas sublinhou que a UE demonstrou a sua solidariedade com países em dificuldades, mencionando a Grécia, Irlanda, Portugal e Espanha. Mas acrescentou que «a solidariedade» não pode ser «um caminho de uma única direção». 

O governo alemão manteve até agora a sua posição de que caso a Grécia pretenda continuar a receber empréstimos financeiros dos seus parceiros europeus, tem de pedir um prolongamento do plano de resgate e renovar o seu compromisso com as reformas. 

O ministro da Economia e vice-chanceler, Sigmar Gabriel, líder do Partido social-democrata (SPD), disse também hoje que apesar de terem de ser respeitados os sacrifícios dos gregos nos últimos anos, não se pode esperar que os contribuintes do resto da Europa paguem as promessas eleitorais do seu novo Governo, liderado por Alexis Tsipras. 

Quem falou, também, em contribuintes foi o Presidente da República, Aníbal Cavaco Silva, que hoje voltou a lembrar os empréstimos portugueses concedidos à Grécia, que saem, justamente, dos bolsos dos cidadãos nacionais. Cavaco Silva espera que o governo de Tsipras honre os seus compromissos, até porque, de acordo com o Tratado de Lisboa, uma vez dentro da União Europeia, «ninguém pode fazer aquilo que quer», e a política monetária de cada estado membro é do interesse de todos.

                     

Mesmo com todos os avisos, o ministro das Finanças grego, Yannis Varoufakis, diz-se «confiante» que a proposta preparada pelo governo helénico será aceite pela Europa. Um pedido de empréstimo que mostra já alguns sinais de “flexibilidade” que rejeita qualquer intenção de não pagar a dívida, e pede que não existam medidas «recessivas» durante os seis meses do empréstimo.

«O pedido será escrito de forma a satisfazer, tanto o lado grego, como o presidente do Eurogrupo. (…) Se continuarmos assim amanhã [quinta-feira] teremos uma boa conclusão a nível técnico…e sexta, através de uma teleconferência, teremos a aprovação da posição grega». 


Varoufakis está mesmo confiante no «ok» do Eurogrupo, e pelo menos do lado dos bancos já há uma boa notícia para a Grécia.

Esta quarta-feira o BCE estendeu, por mais duas semanas, o acesso dos bancos gregos ao mecanismo de empréstimos de emergência, que tem sido uma tábua de salvação para o setor bancário helénico, aumentando o teto para 68,3 mil milhões de euros.