O primeiro-ministro da Grécia, Alexis Tsipras, anunciou, esta quinta-feira, a sua demissão, pedindo ao presidente grego que convoque novas eleições.

"Decidi submeter ao Presidente da República a minha demissão. O mandato que recebi a 25 de janeiro atingiu o seu limite, por isso agora o povo grego tem de decidir com o seu voto quem é que vai prosseguir com a aplicação do novo memorando, após a nossa decisão. (...) O povo grego vai decidir se, até agora, o representámos com coragem suficiente."

 
Durante a sua intervenção, Tsipras disse várias vezes que deve ser o povo grego a decidir se quer que o Syriza continue à frente dos destinos do país, reiterando, também, que o acordo conseguido com os credores foi o melhor possível, e que o governo pensou sempre no superior interesse do país.
 

“Esta fase difícil de negociações está finalmente terminada”, disse, acrescentando que não esperava tamanha oposição da Zona Euro. "Estamos obrigados a cumprir o acordo, mas vamos lutar para minimizar as consequências adversas", continuou.


Tsipras enumerou algumas das vitórias conseguidas nas negociações com os credores, antes de conseguir o terceiro resgate, que queriam "mais cortes nas pensões e a privatização da eletricidade". Apesar das dificuldades, Tsipras mostrou-se otimista, e disse que melhores dias virão. 
 
Alexis Tsipras acabou por colocar as coisas desta forma: se os gregos querem no poder quem "fez de tudo para salvar a Grécia", quem teve a "coragem" de enfrentar os credores e se consideram que o acordo vai levar o país "à recuperação", devem votar Syriza. 

No entanto, admite que o seu governo "não cumpriu" as promessas que fez antes das últimas eleições, daí o seu pedido de demissão.
 
Tsipras deslocou-se imediatamente à residência do Presidente da República, para entregar a sua demissão.
 
 

Oposição tem hipótese de formar governo...


O primeiro-ministro demissionário não confirmou a data das eleições, até porque, segundo a Constituição grega, se um governo se demite menos de um ano depois de ter vencido as eleições (como é o caso), o presidente deve dar aos líderes da oposição uma oportunidade de constituir governo. 

Ou seja, a Nova Democracia e a Aurora Dourada ainda terão uma oportunidade de formar governo. No entanto, como não têm maioria, será pouco provável que o consigam e o presidente deverá então convocar as eleições antecipadas.

De qualquer forma, os analistas acreditam que a data de 20 de setembro é mesmo a mais provável.
 

...e não quer eleições


O líder do principal partido da oposição, Nova Democracia, Evangelos "Vangelis" Meimarakis, já confirmou esta hipótese e garantiu que não prentende avançar para eleições, a não ser que esse seja a única solução. Meimarakis disse que vai consultar os partido "To Potami" e o "PASOK", e outros, para tentar formar um governo minoritário.
 

"Vamos explorar todas a opções para garantir que as eleições são a última opção, não a primeira como Tsipras quer. 


O líder da Nova Democracia disse que ainda vai consultar o partido sobre um envolvimento da Aurora Dourada (extrema-direita), já que se mostraram do lado do Syriza em algumas votações.  

Europa espera que novas eleições ajudem a reforçar o acordo


                 

O presidente do Eurogrupo, Jeroen Dijsselbloem, espera que as novas eleições na Grécia se realizem rapidamente "para que o país possa cumprir os seus prazos". Segundo a agência Reuters, Dijsselbloem acredita que o novo sufrágio pode trazer ainda mais apoio ao novo programa de resgate.

"É crucial que a Grécia mantenha os seus compromissos com a Zona Euro. Lembro-me do grande apoio do parlamento grego ao novo programa e ao pacote de reformas e espero que as eleições levem a mais apoio ainda", disse, num e-mail enviado à agência de notícias.


Também, o porta-voz do presidente da Comissão Europeia, Jean-Claude Juncker, tinha dito, antes do anúncio oficial de Tsipras, que as eleições podiam ajudar a conseguir mais apoio para o programa lançado esta quinta-feira.

"Eleições rápidas na Grécia podem ser um caminho para mais apoio ao programa de estabilidade do Mecanismo Europeu de Estabilidade, assinado recentemente pelo primeiro-ministro Tsipras, em nome da Grécia", escreveu Martin Selmayr no Twitter. 
 

Um Governo de 207 dias 


Desde que o Executivo de Alexis Tsipras tomou posse a 25 de janeiro, a jornada do governo helénico tem sido tudo menos suave. Contrariamente ao que havia prometido na campanha eleitoral, o Syriza não conseguiu renegociar a dívida grega, nem tão pouco evitar um terceiro resgate financeiro para a Grécia.

O primeiro-ministro mais novo de sempre à frente da República Helénica liderou os destinos do país durante 207 dias, até esta quinta-feira, quando já não tinha o apoio de grande parte do seu partido, muito devido ao acordo alcançado  após meses de negociações com os credores internacionais.

A falta de apoio levou Tsipras a anunciar que depois de reembolsar o BCE ( o que aconteceu esta quinta-feira) iria apresentar no parlamento uma moção de confiança.  

A votação esteve longe de ser pacífica, e revelou-se um forte golpe vindo do seu próprio partido. É que 43 deputados, ou quase um terço dos deputados do Syriza votaram contra ou abstiveram-se, um número bem maior do que as três dezenas de deputados que votaram contra as reformas, no mês passado - uma votação que já tinha sido desastrosa e  levou à substituição de membros do governo.

Apesar da crise política, o Syriza tem mantido uma posição sólida na liderança das sondagens de opinião durante todo este ano, mesmo não tendo cumprido várias promessas.

Por isso, Alexis Tsipras pode muito bem voltar a ser primeiro-ministro, com uma nova coligação. 
Ou com a mesma, já que o líder do partido "Gregos Independentes", Panos Kammenos, que pertence à atual coligação, já disse que, apesar de planear concorrer individualmente, vai "cooperar" com o Syriza.

O líder dos Gregos Independentes, Panos Kammenos, já reagiu ao anúncio oficioso de novas eleições, garantindo que o partido vai concorrer como "independente", mas que vai "cooperar" com o Syriza.

Lembre-se que foi este partido que se coligou inesperadamente com o Syriza após o resultado das últimas eleições, dando maioria ao governo de Tsipras.

Recorde aqui os eventos desta tarde, acompanhada AO MINUTO, pela TVI24.
 

Sete meses de polémicas 

 

Os últimos sete meses ficaram marcados por várias polémicas e controvérsias, a maioria ligada às negociações com os credores internacionais. Como mostra o Tweet da AFP publicado acima, 2015 não foi um ano fácil para o Syriza.

25 de janeiro: o Syriza vence as eleições.

26 de janeiro: Alexis Tsipras torna-se oficialmente primeiro-ministro da Grécia, com a promessa de renegociar a austeridade exigida pelos credores internacionais.

20 de fevereiro: credores aceitam prolongar o programa de assistência até 30 de junho, sem hipóteses de nova extensão.

30 de junho: termina o programa de assistência. A Grécia entra em incumprimento e falha o pagamento de 1,5 mil milhões ao FMI.

5 de julho: eleitores gregos votam “não” num referendo sobre a nova ajuda à Grécia, que impõe mais medidas de austeridade.

6 de julho: ministro das Finanças, Yanis Varoufakis, demite-se para aliviar a tensão nas negociações. É substituído por Euclid Tsakalotos.

13 de julho: Alexis Tsipras aceita novas medidas de austeridade para conseguir um terceiro programa de resgate à Grécia.

17 de julho: Tsipras reorganiza o governo depois da votação polémica sobre o novo programa de resgate, na qual três dezenas de deputados do Syriza se mostraram contra o acordo.

14 de agosto: parlamento grego aprova o novo resgate, em nova votação polémica.

20 de agosto: Tsipras demite-se.