Os refugiados em fúria romperam o cordão policial e deitaram as grades abaixo na fronteira entre a Sérvia e a Croácia. Um desespero que causou cinco feridos, entre os quais uma criança, duas crianças perdidas e muitas famílias separadas.

O vice-primeiro-ministro da Croácia apareceu de surpresa no local, em Sid, para apelar à calma e dizer que o país não vai fechar as fronteiras. Este é o relato dos enviados da TVI, Alexandra Borges e Tiago Donato:



Uma estrada abandonada e longe dos olhares mais curiosos é terra de ninguém, entre a Sérvia e a Croácia.

Durante toda a tarde, dezenas de autocarros apinhados que vêm da Macedónia "despejam" famílias de refugiados e migrantes, deixando-os abandonados, à chuva e ao frio.

Perdidas, as pessoas perguntam-nos: "Where are we? How many kms to walk?". Explicamos que têm que aguardar ali, mas não lhes conseguimos explicar porquê. No meio do seu drama, não conseguiriam entender uma "birra" de vizinhos que estão de costas voltadas. 

A polícia sérvia não existe e o comandante dos 25 polícias croatas que formam um cordão e tentam sem sucesso juntar grupos de 50 pessoas confessa-nos que teme o pior.

A multidão desesperada começa a empurrar as baias e a polícia croata rapidamente tenta criar corredores de emergência para mulheres e crianças. Só que as crianças choram pelos pais que continuam no meio da multidão e as mulheres recusam-se a continuar viagem sem os seus maridos.

Uma miúda afegã de 6 anos chora e faz-me sinal de que vai entrar numa crise de falta de ar. Com gestos, consigo perceber que precisa urgentemente da bomba de asma que ficou na posse do pai. Agarro-a pela mão e juntas percorremos a multidão. Localizamos o pai, que olha perdido o horizonte. Consigo alcançar a bomba de asma e ajudo-o tirando-lhe das costas uma mochila gigante.

De repente, a multidão cansada e desesperada avança contra o cordão policial, derrubando as grades e passando por cima de várias pessoas que ficam feridas, entre elas uma criança.

Duas crianças sírias, de 3 e 5 anos, choram e gritam na sua língua. No seu desespero, leio que estão perdidas dos pais. Neste lugar não chega ajuda humanitária, nem Cruz Vermelha, nem ACNUR porque, para todos os efeitos, este lugar não existe.

Mais: se não estivesse no local o meu colega Tiago Donato a filmar tudo, nada disto tinha, de facto, acontecido, porque nós éramos os únicos jornalistas no local.

Procuro os pais das crianças com elas e a mãe aparece. Os médicos da Cruz Vermelha também aparecem para socorrer um miúdo de 11 ou 12 anos que foi espezinhado pela multidão e tem um olho ferido.

Olho em redor, também eu perdida no meio deste drama humano, e reparo numa menina, devia ter 6 ou 7 anos, que chora num silêncio ensurdecedor. Vou até ela e beijo-a e abraço-a com todas as forças que me restam, tentando em vão explicar-lhe que vai correr tudo bem.

Está em choque. Olha-me com os seus grandes olhos escuros banhados de lágrimas e perdidos algures no meio do caminho.

Nunca mais vou conseguir esquecer aquele olhar que gostava de oferecer, congelado, como o vi e o senti, aos senhores da guerra.