A extrema-direita alemã deverá crescer de tal forma nas próximas eleições que pode passar de um partido sem representação no parlamento a líder da oposição. Angela Merkel deverá continuar como chanceler da Alemanha, mas a grande vencedora das eleições legislativas, que ocorrem neste domingo, deverá ser a agenda anti-imigração e anti-euro.

Defende o controlo rigoroso das fronteiras, a deportação imediata dos imigrantes que viram o pedido de asilo negado, a proibição da burca e rejeitam que o islão integre a cultura e a sociedade do país. A Alternativa para a Alemanha (AfD) serviu-se da crise dos refugiados e dos atentados terroristas na Europa para conquistar eleitores com princípios nacionalistas e medidas polémicas.  

Agora, as sondagens atribuem-lhe 11% das intenções de votos, mais do que os 5% necessários para entrar no Bundestag. Este valor representa um crescimento para mais do dobro dos votos que o partido conseguiu em 2013, ano em que foi fundado e em que reuniu 4,7% dos votos. Significa também que, pela primeira vez desde o fim da II Guerra Mundial, um partido de extrema-direita vai ter lugar no parlamento alemão. 

Com 11% dos votos, a AfD deverá ultrapassar partidos tradicionais como os Verdes e o Die Linke (A Esquerda). As sondagens sugerem que o Die Linke (A Esquerda) obtenha 10%, o Partido Liberal (FDP) 9% e os Verdes 8%.

Ao entrar para o Bundestag, a AfD passa a estar representada em todas as comissões parlamentares -- incluindo a de serviços secretos -- e passa a receber financiamento público.

Mas há mais: a AfD pode tornar-se líder da oposição e, assim, ter o direito à primeira réplica nos debates parlamentares. Como? Basta a coligação entre a União Democrata-Cristã e a União Social-Cristã (CDU/CSU), de Angela Merkel, tentar formar governo com o Partido Social-Democrata (SPD), a segunda força política do país, tal como aconteceu há quatro anos.

Merkel, chanceler sem maioria absoluta

De acordo com as sondagens, este ano a CDU/CSU deverá atingir 36% dos votos, abaixo dos 45,3% que conseguiu há quatro anos, novamente aquém de uma maioria absoluta. Assim, a CDU/CSU terá de encetar negociações com outros partidos para conseguir uma maioria no Bundestag, que tem 703 assentos.

Os comentadores e politólogos acreditam que o mais provável é que a CDU/CSU vá tentar formar uma coligação com os liberais democratas do FDP ou os Verdes, mas esta não será uma tarefa fácil.

Liberais e Verdes deverão querer imprimir o seu cunho e não veem com agrado aliar-se um ao outro, embora saibam que essa é a única forma de entrarem num governo.

Os Verdes, há 12 anos na oposição, têm manifestado abertura para integrar um governo liderado por Merkel, algo que rejeitaram há quatro anos, mas muitos dos seus militantes resistem a uma coligação com o FDP. O FDP integrou o segundo governo de Merkel (2009-2013), mas nas últimas legislativas ficou abaixo do limiar mínimo de 5% para estar no parlamento.

Caso as negociações com FDP e Verdes falhem, Merkel poderá tentar uma solução semelhante à que existe atualmente - uma união com o SPD, de Martin Schulz.

O SPD perdeu força nos últimos meses, depois de as eleições regionais que se realizaram no início do ano terem imposto pesadas derrotas ao antigo presidente do Parlamento Europeu. As sondagens sugerem que o SPD não deverá ir além dos 22%, valor abaixo dos 29,4% que atingiu em 2013, deitando por terra as aspirações de Schulz em quebrar a "era Merkel".

E é neste enquadramento, com SPD no governo, que a AfD pode passar a líder da oposição.

Angela Merkel está a chefiar o governo alemão desde 2005 e prepara-se para celebrar no domingo, um quarto mandato ininterrupto.