As calças eram azuis, a camisola era vermelha. O menino, morto. O corpo de Aylan Kurdi deu à costa numa praia de Lesbos e tornou-se na imagem icónica da crise dos refugiados, em 2015. Agora, mas a preto e branco, o famoso artista e dissidente chinês Ai Weiwei recriou essa imagem, numa homenagem a uma causa a que se tem dedicado.

A foto é da autoria de Rohit Chawla e vai constar na próxima edição da India Today, uma das maiores publicações indianas, que tem um artigo dedicado ao artista. A imagem já se tornou viral.

 

Aylan Kurdi (EPA/DOGAN NEWS)


Weiwei dá assim a cara pelo drama dos refugiados. Mas não é, de todo, a primeira vez. Tem-se dedicado à causa e até cancelou uma exposição em Copenhaga, na semana passada, na sequência da lei aprovada pelo Governo e que prevê a apreensão de bens aos requerentes de asilo para compensar os gastos com aquelas pessoas. 
 

Sentir a morte no vento


À CNN, o artista fez mais do que uma descrição, um desabafo capaz de deixar qualquer um arrepiado.

"Eu estava lá e podia sentir o meu corpo a tremer com o vento – pode-se sentir a morte no vento. Somos levados por algum tipo de emoções que só podemos ter quando estamos lá”.


Desde dezembro que este artista chinês tem passado muito tempo naquela pequena ilha grega, por onde passaram pelo menos 450 mil refugiados no ano passado. Durante duas semanas, ele fez uma viagem diária até a praia ao amanhecer, assistindo aos barcos que começavam a aparecer na linha do horizonte. O seu Instagram é um portefólio documental.

"Tinha todos os meus casacos vestidos e estava tão frio - o vento parece que passa através do corpo. Tente imaginar as pessoas no oceano (…) com as pernas congeladas”

 

Para Weiwei, estar na mesma posição de Kurdi é ao mesmo tempo uma chamada de atenção para quem lidera o problema. “A nossa condição pode estar tão longe das preocupações humanas na política dos nossos dias”, lamentou.
O artista quer construir um estúdio em Lesbos, com voluntários de Pequim e Berlim para fazer pesquisa e filmar o drama. O plano é passar pela Síria, Iraque e outros países do Oriente Médio onde a crise dos refugiados encontra eco.

Ele, que é um dissidente chinês, sabe que pode ter problemas em concretizar todos estes seus planos, porque ainda há pouco tempo teve o passaporte confiscado. Foi-lhe devolvido em julho passado, quatro anos depois de as autoridades lhe terem revogado o direito a viajar.

Mas Weiwei continua, com mensagens carregadas de força. Desta vez, o seu alvo é naturalmente o Velho Continente: “A Europa não é muito mais do que um cobertor”