Ahed Tamimi, uma jovem palestiniana que tem agora 17 anos completados a 31 de janeiro numa prisão israelita, começou esta terça-feira a ser julgada num tribunal militar judaico, acusada de crime contra a segurança. Símbolo da persistência palestiniana na luta contra a ocupação por Israel, a adolescente foi detida a 19 de dezembro do ano passado, depois de ter sido filmada, quatro dias antes, a esbofetear e pontapear um soldado israelita, junto à casa onde mora na Cisjordânia, numa aldeia que estava a ser ocupada pelas forças judaicas.

De acordo com a BBC News, a cena, que se tornou viral nas redes sociais, foi captada em vídeo pela mãe da jovem, Nariman, que também está detida, acusada de “incitamento”. Nas imagens, Ahed Tamimi surge junto a outra jovem, a prima, de 20 anos, a discutir e a empurrar dois soldados, que não retaliaram.

Agora Ahed Tamimi é presente a um juiz para responder por aquelas bofetadas e pontapés e por outras afrontas ao longo dos anos. A rapariga defende-se acusando os militares israelitas de dispararem balas de borracha.

No mesmo dia em que Ahed agrediu o soldado, o primo dela, Mohammed, levou um tiro na cabeça. A bala que atingiu o adolescente de 15 anos era de metal, revestida de borracha, e foi disparada por um soldado israelita. Mohammed perdeu parte do crânio. A jovem argumenta que, quando deu a bofetada ao militar, estava nervosa com a violência cometida contra o primo.

O exército israelita informa que os dois soldados que estavam na frente da casa de Ahed faziam parte de um grupo enviado à vila Nabi Saleh para controlar palestinianos que atiravam pedras às tropas e ocupavam uma estrada usada por motoristas israelitas.

Ahed Tamimi é vista pelos palestinianos como uma heroína, um símbolo da resistência à ocupação israelita, mas Israel encarou os atos da adolescente como uma humilhação aos militares.

O vídeo em que Ahed surge de punho cerrado a bater no soldado não é o primeiro em que a adolescente ativista aparece a fazer frente a israelitas. Há anos que a família Tamimi protesta contra as colunatos judaicos na Cisjordânia, onde 88% dos cerca de três milhões de pessoas que lá vivem são palestinianas, de acordo com a organização israelita Paz Agora. As imagens recorrentes da jovem e da família a participarem em protestos fazem com que os Tamimi sejam acusados de provocar deliberadamente soldados e, assim, promover a propaganda anti-Israel.

Quando tinha 11 anos, Ahed Tamimi foi filmada a ameaçar dar um soco a um soldado depois de o irmão mais velho ter sido preso. Há dois anos, a rapariga bateu num militar que tentava deter o irmão mais novo.

Agora que ela está na prisão, acho que vai pagar um preço, e vai ser um preço alto", diz à BBC Anat Berko, membro do Parlamento israelita e representante do Likud, o partido no Governo."Sinto muito que a família não tenha contido esse comportamento", diz Berko, ressaltando que, mesmo sendo provocados e agredidos, os soldados não reagiram.

Centenas de menores palestinianos presos em Israel

Ahed Tamimi está a ser julgada num tribunal militar, tratada como uma ameaça à segurança de Israel. A jovem responde por 12 acusações, entre as quais o arremesso de pedras e a interferência nos deveres de um soldado relativas a episódios passados anos antes da bofetada que a pôs atrás das grades. Arrisca uma pena de prisão entre os 12 e os 14 anos. 

O caso da adolescente atraiu a atenção internacional, mas apesar de Ahed se ter tornado um símbolo do conflito entre palestinianos e israelitas, ela não é a única pessoa menor de 18 anos presa em Israel. De acordo com um levantamento feito pela B'Tesselem, uma organização não-governamental de direitos humanos, a jovem é uma das mais de 300 crianças e adolescentes palestinianas que estão detidos em prisões judaicas por se insurgirem contra a ocupação da Cisjordânia.

O caso de Ahed Tamimi fez crescer a discussão em torno do tratamento discriminatório de crianças palestinianas, um tema para o qual as organizações internacionais de direitos humanos pedem atenção.

A Amnistia Internacional, citada pelo Jerusalem Post, apela, esta terça-feira, no início do julgamento, à imediata libertação de Ahed, lembrando Israel de que é signatário da Convenção de Direitos da Criança.

A organização de direitos humanos destaca que existem 350 crianças ou adolescentes palestinianos detidos pelo exército israelita, que os sujeita regularmente a “maus tratos, colocação de vendas nos olhos, ameaças, prisão solitária e interrogatórios sem a presença dos seus advogados ou familiares”.